De pais que não deixam brincar na chuva nascerão líderes resilientes?

Rodrigo Vargas – Há quem diga que a esperança do futuro está na nova geração. E, de fato, sempre esteve. A diferença é que agora essa esperança repousa nos ombros de jovens criados por pais que aprenderam a aquecer mamadeira na temperatura exata com termômetro digital, mas jamais empunharam uma chave de fenda sem assistir a um tutorial no YouTube.

São os filhos de uma geração “nutela”, aquela que trocou, em algum momento, o “engole o choro” por “vamos conversar sobre seus sentimentos”, e o “na minha época comia o que tinha” por “filho, você gostaria de mais quinoa ou prefere batata-doce orgânica?”. Pais que não só carregam a mochila dos filhos até a porta da escola, mas também conferem se o Wi-Fi da instituição é estável, afinal, “como é que vai aprender sem internet, meu Deus?”.

A ironia é que dessa aparente fragilidade parental, que fique claro que não estou julgando, apenas pontuando, pode nascer uma geração mais resiliente do que as anteriores. Afinal, nada forja caráter como crescer entre pais que escrevem textão no grupo de pais do WhatsApp porque o lanche da cantina tinha glúten oculto. Ou que organizam comitivas para conversar com a direção da escola porque a apresentação de fim de ano não repetiu no mínimo duas vezes, com mudança de posição para que todos os filhos estivessem na frente. Mas e o filho queria estar à frente? Crescer no meio desse exagero é um convite para a rebeldia saudável: filhos que aprendem a resolver as coisas sozinhos, cansados de tanta proteção.

E se a história se repetir, como tende a acontecer, os filhos dos “nutelas” podem ser justamente os “raiz” que o mundo precisa: menos cheios de frescura, mais práticos, irônicos, e talvez até capazes de abrir a tampa de um pote de palmito sem utensílio específico para isso.

Acredito que no fundo, o futuro nunca esteve em pais heroicos ou filhos perfeitos, mas nesse embate eterno entre a geração que cria e a que resiste à criação. O que nos resta é observar, rir um pouco e torcer para que, dos pais “nutelas”, surjam filhos bem resolvidos e, quem sabe, netos que descubram que nem toda a vida precisa de manual de instrução em PDF. (Foto: Reprodução)

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