Qual o peso dos negócios administrados por grupos ilegais na economia brasileira? Um estudo lançado em julho de 2024 pela Esfera Brasil mostra que o crime organizado atua inclusive nos grandes setores da economia, como mineração, mercado mobiliário, comércio de combustíveis e transporte público, e está cada vez mais presente na economia do país.
A partir daí surge uma burguesia mafiosa, desprovida de qualquer verniz e projeto de país, que opera com negócios legais e ilegais. Nela estão emergentes da Barra da Tijuca, DJ, pastores de seitas neopentecostais, yuppies do mercado financeiro na Avenida faria Lima (em SP), empresários que enriquecem da noite para o dia, e milicianos. Estão cada vez mais presentes na economia, no sistema financeiro e na política.
Três grandes frentes
A pesquisa “Segurança Pública e Crime Organizado no Brasil”, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que o crime organizado fatura R$ 348,1 bilhões ao ano em três frentes. O que lidera o ranking é o de celulares e golpes virtuais (R$ 186,1 bilhões).
O segundo maior grupo envolve combustíveis e lubrificantes, bebidas, ouro e tabaco equivale a 42,1% do total ou R$ 146,8 bilhões, em 2023. Esse montante equivale a três vezes e meia o orçamento anual do Ministério da Educação (MEC). Curiosamente o tráfico de cocaína aparece por último, com R$ 15,2 bilhões.
De acordo com os pesquisadores, ao menos 21 atividades legais e ilegais com fluxos ilícitos passam por regiões brasileiras. Elas podem ter origem ou destino em países da América do Sul, América do Norte, Europa, Ásia, África e Oceania.

Holdings do crime
Da revenda de combustíveis ao garimpo ilegal de ouro, passando pelo contrabando de cigarros e bebidas alcoólicas, grupos criminosos crescem rapidamente em diversos setores da economia brasileira e faturaram quase R$ 350 bilhões nos últimos três anos.
“Essas organizações não atuam mais só em negócios ilegais, elas se expandiram. Hoje exploram mercados de atividades lícitas para lavar dinheiro ou para esconder produtos de crimes praticados em outros setores”, explica o advogado criminalista Pierpaolo Bottini, que foi consultor do estudo.
As principais movimentações ilícitas estão concentradas em quatro áreas desde 2022: comercialização ilegal de combustíveis (R$ 61,5 bi); comercialização ilegal de bebidas (R$ 56,9 bi); extração e produção ilegal de ouro (R$ 18,2 bi); contrabando e comércio ilegal de tabaco e cigarros (R$ 10,3 bi).
Lavanderias
É o que explica toda a movimentação de dinheiro arrecadado com o negócio de combustíveis pelo PCC, desembocando em cerca de 40 instituições financeiras legais (entre elas o BK Bank), como revelou a PF nas Operações Carbono Oculto, Quasar e Tank, deflagradas em agosto passado para desbaratar o esquema.
Outro expediente usado passa pela difusão de jogos ilegais na internet (Tigrinho e outros), o que resultou na expedição de 31 mandados de prisão, sendo 15 contra influenciadores digitais no Rio e S. Paulo.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) apontam movimentações bancárias dessas pessoas que ultrapassam os R$ 4 bilhões, o que explica o enriquecimento ilícito e acelerado dessas personalidades do mundo digital.
Um estudo da XP Investimentos aponta que as apostas online movimentam cerca de 1% do PIB brasileiro e comprometem até 20% do orçamento das famílias de baixa renda. Vale lembrar que as chamadas BETs estão nas camisas dos principais clubes de futebol do Brasil.
Também tem sido comum a detenção de Disk Jockeys (DJ), acusados de lavar dinheiro para o crime organizado. A prática consiste em inflar o lucro dos shows e outras atividades, para declarar um volume de vendas superior ao real, usando o dinheiro ilegal para cobrir a diferença. O artista serve de “fachada”, usando sua imagem para legitimar negócios de uma organização criminosa.
Deus na causa
Outra prática comum é a lavagem de dinheiro em estruturas de seitas religiosas neopentecostais, como indica a sociedade entre Francisley Valdevino – o Sheik do Bitcoin – com Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC).
Segundo a PF, Valdevino que foi condenado e preso, intermediou desde 2018 a movimentação de cerca de R$ 4 bilhões no Brasil e exterior, usando quase uma centena de empresas que lavavam o dinheiro do esquema. Malafaia desmente e diz que desfez a sociedade assim que tomou conhecimento dos negócios de Francisley.
Muitas seitas neopentecostais com igrejas em favelas e periferias controladas por grupos criminosos recebem empréstimos ou doações desses grupos, servindo de lavanderia de dinheiro de operações ilegais. Isso ocorre porque as igrejas gozam de imunidade tributária no Brasil e não há fiscalização sobre a movimentação financeira nessas instituições religiosas – que costumam lidar com dinheiro vivo – e de seus líderes.
Milícias e controle do território
Em 2023, dos 466,65 km² de área do Grande Rio eram dominadas por algum grupo armado, 38,9% estavam sob o domínio das milícias. É o que indica o Mapa Histórico dos Grupos Armados, organizado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, em parceira com o Instituto Fogo Cruzado.
A capital fluminense é uma região marcada pelo predomínio das milícias, geralmente organizadas por grupos de policiais, ex-policiais e bombeiros. Dos 155,33 km² de área da cidade dominada por algum grupo armado em 2023, 66.2% estavam sob influência das milícias, sobretudo nos bairros da Zona Oeste.
As milícias têm forte atuação no setor imobiliário (grilagem de terras, passando pela construção e venda de imóveis ilegais), transporte alternativo (vans e moto-táxis), gás e energia (botijões e gatos na rede), serviços de Internet e TV a cabo, taxas de segurança sobre comerciantes, tráfico de drogas e loteamentos e construções ilegais (condomínios e shoppings).
Para dar aparência de legalidade aos seus ganhos ilícitos, as milícias usam empresas de fachada, como distribuidoras de gás, provedores de internet e associações de moradores.
Na imagem destacada, operação das polícias do Rio de Janeiro contra o crime organizado. (Foto: Divulgação / Governo do Estado do Rio de Janeiro)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do relatório Segurança Pública e crime organizado no Brasil (2024), Mapa histórico dos Grupos Armados (Geni-UFF), Esfera Brasil, CNN Brasil, Opinião em Pauta e Metrópoles. Imagens do FBSP e do G1.



