Educação em risco: apesar de pequenos avanços, o ensino indígena ainda não atende à diversidade dos diversos povos.
Bia Cardoso (*) – Cumaru do Norte, no sul do Pará, abriga uma população indígena significativa. São 2.487 habitantes autodeclarados indígenas, representando 17,72% da população total do município. O município está inserido na Terra Indígena Kayapó, que se estende por vários municípios, incluindo Cumaru do Norte, Bannach, Ourilândia do Norte e São Félix do Xingu, na divisa com o Mato Grosso.
A Terra Indígena Kayapó tem um tamanho próximo ao do Espírito Santo e é maior que Sergipe e Alagoas. É uma das maiores áreas protegidas de floresta do Brasil, onde estão 70 aldeias. Nelas, vivem cerca de 6.500 habitantes, de acordo com o censo do IBGE. Mas como levar a escola para o coração da floresta, onde a conexão com o mundo depende de estradas precárias?

No barracão onde funciona uma das creches da TI, o aprendizado multisseriado disputa espaço com a precariedade. O barracão sem paredes recebe as crianças sem garantir a elas sequer uma carteira escolar. Aqui, crianças indígenas se sentam no chão batido e usam folhas para tentar construir um futuro melhor, enfrentando dificuldades diárias.
As aulas para as crianças indígenas do ensino fundamental ainda não começaram. E não foi por escolha delas. O perigo de cruzar pontes feitas com troncos de árvores , que ligam as comunidades à sede da cidade , fez os líderes Kayapó , protestar, no final de semana. Atearam fogo tentando chamar atenção das autoridades ( LEIA AQUI ) . Mas não tiveram até agora do poder público , nenhum sinal, nenhuma resposta. Enquanto isso, o tempo passa e as crianças seguem esperando .

No meio da imensidão verde, onde a floresta parece isolar as crianças de um direito básico, a educação encontra caminhos para florescer. Elas levam para o barracão um conhecimento que vem da mata, dos rios, das histórias contadas ao redor do fogo.
Os Mebengokré têm consciência de que a missão da escola é ensinar socializando o conhecimento. Mas como educar sem livros, sem estrutura, sem carteiras, com ônibus precários? Como garantir que o conhecimento tradicional caminhe lado a lado com a educação formal? Enquanto professores se desdobram para manter o ensino vivo, a comunidade luta para que essas crianças tenham mais creches e o direito de aprender.
Para esse povo guerreiro, a educação vai além do português e da matemática. É também o conhecimento ancestral, transmitido de geração em geração, que precisa ser preservado. Mas como equilibrar o ensino formal com a tradição Kayapó? Como garantir que as novas gerações aprendam sem perder sua identidade?
O Opinião em Pauta recebeu fotos e relatos de indígenas destacando a luta por uma educação que respeite sua cultura. Eles se queixam de que professores indígenas foram substituídos pela Prefeitura de Cumaru do Norte por não indígenas que não entendem o dialeto e a cultura dos Mebengokré.
“Pra gente que saiu para estudar na cidade, a educação fortalece nossa comunidade e abre caminhos para um futuro de oportunidades” , afirma o líder Tumré.
Diante dessa realidade, os Kayapó querem mais diálogo e investimentos do poder público para transpor os obstáculos de uma jornada com caminhos possíveis. (Fotos: Comunidades Katapó)
(*) Bia Cardoso é jornalista e assessora parlamentar -, também repórter do Opinião em Pauta