Glauco Alexander Lima, caboclo belememse – Belém é quente. Muito quente. Um calor úmido, pegajoso, insistente — onipresente! Um calor quase malino, como se diz pela cidade. Mas, curiosamente, em Belém também faz frio! Quer dizer… o frio do ar-condicionado. Está em todo canto: no hotel, nos restaurantes, no bar, nos escritórios e, só agora, finalmente até no ônibus. Quase sempre no 16 °C. Por isso, estrangeiro ou brasileiro desavisado, traga uma blusa, como dizem os paulistanos! Aqui, a pessoa transita entre o muito quente e o geladão várias vezes no dia.
Belém é quente, úmida e sensual. Tem algo de quentura da floresta do trópico úmido e algo de místico — calorosa e úmida com uma mulher com vontade de rolar na dança do amor. Em Belém, dá para tomar banho de rio ou de piscina de madrugada, em qualquer época do ano. Nunca haverá frio. Às vezes, o sol impiedoso esquenta tanto a tubulação, que um chuveiro comum parece um potente chuveiro elétrico no quente.
Mas Belém é mais que calor térmico— é também calor de fé. A cidade é o berço de uma das maiores denominações evangélicas da América do Sul, e ao mesmo tempo a capital do Círio de Nazaré, a maior festa católica do planeta. Milhões de pessoas caminham juntas todo outubro, misturando santos e pecadores, crentes e descrentes, em um mar de emoção que arrasta gente como o Rio Amazonas levando folhas e galhos de suas margens. É o carnaval devoto, que vai dos hinos de louvor aos grandes clássicos da brega local.
Aqui, brega é estética afirmativa
E por falar em brega, Belém juntou cabaré e Caribe e se fez capital mundial do brega. Mas atenção: brega aqui não é ofensa, é identidade. É estética afirmativa, é ritmo, é performance. É mix e remix de dor de cotovelo com remelexo da cúmbia, merengues, boleros, estética relax, tecno, tradição, tudo junto, num blend inigualável. O brega que já foi pejorativamente chamado de música de empregada doméstica ou de peão de obra, hoje é trilha que vai dos DJs dos clubes dos ricos aos botecos dos mais lisos. E Belém ri disso com orgulho, dançando e criando, desde novos hits de aparelhagem até e roupa poeticamente brega para vestir o botijão de gás.
Belém é bacana. É lusitana. Belém é exagerada e passional. O verdadeiro belemense não se impressiona com Real Madrid, Barcelona, Chelsea, Flamengo ou Corinthians. O coração belemita militante raiz bate por Paysandu ou Remo. E se quiseres entender o que é essa paixão, vá ao entorno do estádio Mangueirão num clássico entre os dois. Chegue duas horas antes do jogo. Veja, sinta, saboreie, entregue-se a esse fanatismo onde o azul escuro não mistura com o azul claro.
E se o Brasil é desigual economicamente, Belém é um dos maiores exemplares dessa desigualdade do chamado poder aquisitivo. A região metropolitana tem mais de 2,5 milhões de habitantes. A maioria é pobre, muito pobre! Alguns, miseráveis. Mas os ricos — uns 5% — são muito ricos, bastante ricaços, ricos em qualquer lugar do mundo. Essa configuração socioeconômica impacta no desenho arquitetônico da cidade, com seus barracos precários pertinho de edifícios caríssimos com um duvidoso estilo “quero ser Miami!”.
Falar em economia puxa política e, independente do grupo governante do momento, Belém vive sob uma eterna ditadura: a ditadura das águas! Grande parte de Belém fica abaixo do nível do mar. As marés penetram nas baixadas Belém. É a umidade, as chuvas, as chuvas grossas, as chuvas finas, os rios, os furos, igarapés, os igarapés que viraram esgoto a céu aberto.
Ritmo de vida

A imperatriz água manda e desmanda na capital do Pará. E, embora conhecida como Cidade das Mangueiras, já tendo até sido citada por isso numa canção de Caetano Veloso, ironicamente, é uma das capitais menos arborizadas do Brasil. Aqui, uma sombra de árvore ao meio-dia pode ser a linha que separa o céu do inferno.
Belém chia, recria, é magia pura, fica numa esquina única: a foz da bacia amazônica se encontrando com o Atlântico. É nesse encontro de águas doces e salgadas, que nascem sabores que deixam até o mais vivido habitué de restaurante estrelado, incapaz de fingir normalidade. Comer em Belém é uma experiência extraterrestre. Mesmo um simples peixe frito com açaí e farinha parece obra de um chef com muitas estrelas Michelin. E o açaí da Grande Belém daqui é sério: é puro, verdadeiro, é como beber a Amazônia concentrada numa cuia.
Belém tem um ritmo de vida, que ainda resiste as modernidades e corres desses novos tempos. Antes das redes sociais digitais, Belém já vivia na rede, a rede de dormir, atando a baladeira de domingo a domingo. Depois de devorar uma maniçoba (considerada a “feia” mais gostosa do mundo) ou de um litro de açaí com farinha grossa, a sesta é sagrada. O sono vem doce, embalado pelo barulho da chuva e do ventilador estalando no máximo.
A farinha, aliás, é uma das maravilhas da cidade. É de mandioca — e tem tipos para cada alma: grossa, baguda, média, fina. Uma farofa bem feita em Belém é coisa de divindades. Pode ser de ovo, de tamuatá, ou até de bacon de pirarucu. Uma dessas novidades desses tempos de Belém gourmetizada. E por falar em pirarucu, aqui se come o melhor em peixe. Tambaqui, filhote, dourada, pirarucu. Um prazer de pirar, de pirarucu, de pacu, tucunaré! Ô cidade pra gostar de… peixe!!



