Chile: extrema direita confirma vitória previsível na eleição presidencial

Henrique Acker –  Para além da polarização que tomou conta do cenário político internacional, a vitória de José Antonio Kast, candidato de extrema direita na eleição presidencial do Chile, era previsível.

Ela começou com o resultado do referendo sobre a nova Constituição, em setembro de 2022, quando o governo de Gabriel Boric teve uma de suas principais metas barradas pelo voto popular.

Dali em diante, não só a extrema-direita passou a crescer, como o próprio governo de Boric deu uma guinada, assumindo uma cara moderada que desmobilizou os partidos de esquerda e movimentos populares que o apoiaram na eleição de 2021, depois da grande onda de manifestações populares de 2019 e 2020.

Sem maioria no Congresso, o governo Boric foi impedido de avançar com as principais reformas que pretendia aprovar: a reforma do sistema educacional, do sistema de aposentadorias e a reforma tributária, que financiaria essas medidas.

 

Plataforma ultraconservadora

José Antonio Kast não é um “liberal libertário”, ao estilo tresloucado do argentino Javier Milei, nem um neoliberal no sentido econômico. Ele é um conservador em termos políticos e ideologicamente corporativista de extrema direita, a base de uma tendência claramente autoritária e antipopular.

Durante a campanha eleitoral, Kast prometeu uma força policial especializada em rastrear e deportar imigrantes que estejam ilegalmente no país, como acontece nos EUA de Donald Trump.

No ano passado, Kast visitou as megaprisões salvadorenhas construídas pelo presidente Nayib Bukele, modelo defendido em sua plataforma eleitoral. Seu plano de governo inclui leis trabalhistas mais flexíveis e menos impostos para as empresas.

Sua ligação com uma família nazista é bem conhecida. Mas nem isso causou qualquer incômodo ou escândalo durante a campanha, demonstrando que a própria sociedade chilena atravessa um momento conservador e pró-autoritário, semelhante ao que ocorre em outros países.

Aliás, a direita chilena jamais se desvinculou da ditadura de Augusto Pinochet, que é cultuado abertamente em alguns círculos mais reacionários da sociedade.

 

Sem maioria no parlamento

 

 

No parlamento, apesar do crescimento dos partidos de esquerda, a extrema-direita e a direita tradicional, somadas, embora não tenham maioria para governar, devem alcançar votos suficientes para dar alguma estabilidade institucional ao governo de Kast.

Das 155 vagas da Câmara de Deputados, o bloco formado pelo PS, PC e Democracia Cristã conquistou 61 mandatos. O bloco Cambio por Chile (extrema-direita), formado por Republicanos – partido de Kast – e Nacional Libertário, elegeu 42 deputados. Já a direita tradicional (União Democrática Independente e a Renovação Nacional) conquistou 34 cadeiras.

Quadro parecido está desenhado no novo Senado do Chile. Foram renovadas 23 do total de 50 cadeiras. O resultado final confirma que nenhuma força isolada poderá legislar sem acordos e que o Senado será um espaço de disputas permanentes. Mas a tendência é que Kast conte com os votos de outros partidos conservadores no parlamento.

Com a vitória do candidato de extrema-direita, o Chile se soma a Argentina, Equador, Peru, Bolívia e Paraguai, num bloco político de governos ultraconservadores na América Latina. Do outro lado estão os governos do Brasil, Colômbia, Venezuela, Uruguai, Suriname e Guiana, num bloco progressista e de esquerda.

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações CNN Brasil, Rebelion, G1, Opera Mundi, Inst. Humanitas Unisinos e Veja, com imagens de InfoMoney e Poder 360.

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