Cerimedo é só a ponta da intervenção de Trump na A. Latina

Henrique Acker – De taxista e professor a conhecido marqueteiro de candidatos da extrema-direita. O argentino Fernando Cerimedo, que participou como consultor das campanhas vitoriosas de Javier Millei (Argentina), Nasry Asfura (Honduras), Rodrigo Paz (Bolívia), Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Keiko Fujimori (Peru), saiu das sombras para se tornar o pivô de uma tentativa de assassinato na Bolívia.

A advogada Nadia Beller, que está grávida e sobreviveu a um atentado à bala encomendado pelo próprio Cerimedo, decidiu contar o que sabe sobre a trajetória do ex-namorado. Entre os casos descritos por Beller está a proximidade de Cerimedo com a CIA, Agência de Inteligência dos EUA.

Não há provas de que Fernando Cerimedo seja efetivamente vinculado à CIA, mas é conhecida sua ligação direta com Brad Parschale, chefe da comunicação da corrente ultradireitista MAGA (“Tornar a América Grande Novamente”) e de Donald Trump.

 

“Quase um milhão de dólares”

Em vídeo que circula pelas redes sociais, Cerimedo agradece a Parschale, em uma cerimônia pública, por ter colocado “toda estrutura necessária para sua atuação na América Latina”. Dessa estrutura constam as chamadas fazendas ou granjas de robôs que inundam as redes sociais com postagens de notícias falsas, através de perfis inventados.

“A maior fazenda de bots fica em Buenos Aires. Mas também existem aquelas que operam para a América Latina, ou aquela que trabalha para o governo israelense, gerenciada por Brad Pascal nos Estados Unidos. Na Bolívia, elas são pequenas”, disse Beller em entrevista ao jornal Clarín.

A declaração foi confirmada pela polícia boliviana, que descobriu um imóvel nos arredores de La Paz, no qual foi encontrada uma das tais “fazendas de bots”, com 43 mil celulares funcionando.

Em depoimento aos promotores de Justiça, Cerimedo declarou que tem renda mensal de “quase um milhão de dólares”, mas negou qualquer contrato com o governo boliviano. Em sua defesa, alegou que o escândalo envolvendo seu nome seria parte de uma tentativa de golpe de Estado.

 

Com Javier Millei, com quem mantém relação estreita desde a vitória eleitoral

 

Suspeita de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito

A Justiça e a Promotoria da Bolívia abriram novas linhas de investigação contra Fernando Cerimedo, apurando sua suposta participação em um esquema de proteção e cobertura a voos irregulares ligados ao narcotráfico no município de Santa Ana de Yacuma.

“Trata-se de um possível esquema de proteção que vinha sendo oferecido no município de Santa Ana, para o qual ele (Cerimedo) estaria dando cobertura. Esse é o termo que vem sendo usado em relação a certas pequenas aeronaves supostamente ligadas ao tráfico de substâncias controladas”, relatou o procurador do Ministério Público, Alexander Mendoza.

Nadia Beller também acusa Cerimedo de participação no esquema de venda de combustível no mercado negro na Bolívia e a saída de 189 quilos de ouro para Dubai, em operações que envolveriam a esposa e a filha do presidente Rodrigo Paz.

No celular de Cerimedo, a polícia encontrou diálogo que confirma sua participação na tentativa de homicídio. Em troca de mensagens com ECG – apontado como Erik Corrêa Gonzalez, chefe de inteligência do governo boliviano -, Cerimedo diz: “Nadia nos entregou. Ou a eliminamos ou estamos fodidos. Conheces alguém que possa fazer o trabalho?”.

Dias após o depoimento de Beller, a polícia boliviana descobriu um imóvel nos arredores de La Paz, no qual foi localizada uma das “fazendas de robôs”, com 43 mil celulares funcionando.

 

Propaganda suja na internet

Cerimedo é fundador da agência Numen e esteve à frente do portal La Derecha Diario, junto com o espanhol Javier Negre. Diferente do que se difundiu, a Numem Advisors LLC foi criada oficialmente em Miami (EUA), em 2023. Mas o nome de Cerimedo consta entre os fundadores.

Consta da Declaração Suplementar registrada pelo Departamento de Justiça dos EUA em 30 de julho de 2026, a descrição de reuniões entre o lobista Damian Merlo e Cerimedo com figuras da alta cúpula do governo dos Estados Unidos, todas elas próximas de Donald Trump.

Entre esses nomes estão Gavin Wax, chefe de gabinete da subsecretária Sarah Rogers; Christopher Landau, subsecretário de Estado; Ana Quintana, do Planejamento Político; Viviana Bovo, ex-assessora de Marco Rubio. A eles se soma Joseph Humire, chefe de Assuntos de Segurança para as Américas e diretor do Centro para uma Sociedade Livre e Segura, ligado à Fundação Heritage e com experiência em trabalhos na Venezuela, em Cuba e no Irã.

Brad Parscale, ex-gerente de campanhas de Donald Trump desde 2016, passou a estar ligado aos empreendimentos de Cerimedo na América Latina a partir de 2025. Parscale é próximo da família Trump desde 2012 e foi um dos responsáveis pela estratégia digital da campanha presidencial de 2016.

Em setembro de 2025, a empresa de Parscale, Clock Tower X, foi contratada pelo governo de Israel para realizar campanha destinada a melhorar a imagem do país, afetada pelo massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza desde outubro de 2023.

Segundo o Wall Street Journal, o contrato previa o pagamento de US$ 50 milhões pelo envio de milhões de mensagens de texto geradas por inteligência artificial para celulares de cidadãos norte-americanos.

 

No Chile, assessorando o presidente José Antonio Kast

 

Operador digital na América Latina

Tudo na vida de Cerimedo soa falso. Ele afirmava ter sido estudante de Direito da Universidade Nacional de Mar del Plata (Argentina) e que recebeu uma bolsa para estudar na Universidade de Harvard (EUA).

Também se gaba de ter participado de uma oficina com o ex-presidente Barak Obama, que o teria contratado como assessor na Casa Branca. Na verdade, nesta época Cerimedo era taxista na Argentina. Consta de sua ficha a venda ilegal de um mesmo apartamento para duas pessoas.

Pelo sim pelo não, o fato é que o nome de Fernando Cerimedo aparece associado a praticamente todos os processos eleitorais dos últimos anos na América Latina como consultor de campanha de candidatos de extrema-direita.

Não há provas de que Cerimedo seja um agente da CIA. O mais provável é que seja um operador político regional, que obteve a confiança de Damián Merlo, lobista argentino-estadunidense que atua em Miami. Merlo o colocou em contato direto com figuras representativas do MAGA, nos EUA.

 

Desmentido pelas Forças Armadas brasileiras

Nos últimos dias, apesar do desmentido de governantes que tiveram campanhas eleitorais assessoradas por Cerimedo, foram divulgadas fotos dele em reuniões e encontros oficiais com a presença de Rodrigo Paz, Javier Millei, Keiko Fujimori, José Antonio Kast e Nasry Asfura.

No Brasil, Cerimedo foi convocado pela família Bolsonaro para sustentar as denúncias de fraude eleitoral em 2022, difundindo o slogan “O Brasil foi roubado” e, recentemente, em apresentação na internet conduzida por Eduardo Bolsonaro sobre o mesmo tema. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) comprovou que as denúncias não tinham qualquer base comprobatória e desmentiu as alegações de Cerimedo.

Em relatório enviado em 9 de novembro de 2022 ao então presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, as Forças Armadas confirmaram que “quanto à fiscalização da totalização, foi constatada, por amostragem, a conformidade entre os BU (Boletins de Urnas) impressos e os dados disponibilizados pelo TSE.”

Não há dúvida de que o governo dos EUA planeja interferir no processo eleitoral no Brasil. Por enquanto, Fernando Cerimedo – preso na Bolívia pelos próximos 180 dias – deve ficar de lado. Mas não será difícil seguir a mesma cartilha aplicada por Cerimedo nas últimas eleições em toda a América Latina.

Na imagem destacada, Cerimedo (primeiro à direita) ao lado do presidente da Bolívia, em encontro com Marco Rubio. (Fotos: Reprodução)

 

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Ópera Mundi, DCM, Clarín, CNN Brasil, Brasil de Fato, Página 12 e Agência Pública

Relacionados

plugins premium WordPress