Rodrigo Vargas – Entre uma olhada e outra nas redes sociais, noticiários na TV e rádio, me veio uma pergunta: E se o povo brasileiro se unisse e escrevesse uma carta aos nossos representantes?
Se, por um instante, todas as vozes sufocadas pelas dificuldades do dia a dia se transformassem em palavras no papel? Se o desabafo de quem enfrenta filas na saúde, escolas com falta de professores e de equipamentos, salários baixos e insegurança virasse um grito coletivo, endereçado ao aos representantes dos três poderes?
Entre devaneios de uma madrugada com pouco sono, penso que a carta seria assim:
Senhores e senhoras que ocupam os altos cargos da República,
Aqui quem escreve não é um especialista, nem um consultor, nem um marqueteiro. Quem escreve é o povo. Aquele que acorda cedo, enfrenta fila no hospital, ônibus lotado, escola sem merenda, salário curto (que dura bem menos de um mês). Aquele que paga imposto até no pão, mas não vê o retorno no dia a dia.
Somos milhões nos mais diversos nomes, rostos, histórias. Mas, para muitos de vocês, parecemos apenas números em estatísticas, votos na urna, ou vozes distantes que não chegam aos gabinetes climatizados.
Sabemos que existe um jogo sendo jogado. Vemos os discursos inflamados, as sessões plenárias, os embates nas tribunas e nas redes sociais. Vemos as trocas de farpas (as vezes até acusações) entre quem deveria estar trocando ideias em busca de soluções. Enquanto isso, nossas escolas caem aos pedaços, nossos hospitais pedem socorro e nossas ruas gritam por segurança.
Vocês, que juraram servir ao país em cada pedido de voto ou discurso no tribunal, hoje parecem mais preocupados em servir aos próprios interesses. Trocam acusações, protegem aliados, disputam cargos como se estivessem em um tabuleiro de xadrez onde o povo é só peão.
Mas este peão cansa. Este peão sofre. E também pensa.
Queremos saber: em que momento a política deixou de ser sobre pessoas e passou a ser sobre poder?
Quando foi que a ideologia virou mais importante que a dignidade humana?
Por que tanta energia é gasta em brigas inúteis, enquanto nos falta o básico?
Não pedimos milagres. Só pedimos respeito. Pedimos que voltem os olhos para os bairros sem saneamento, para os jovens sem esperança, para os idosos sem atendimento e por vezes com sua aposentadoria sendo lesada. Pedimos que escutem menos os interesses de seus partidos e mais os clamores das ruas.
Esta carta não tem um tom de raiva. Tem o tom da exaustão. Não queremos confronto. Queremos cuidado. Queremos ver o país funcionar para quem acorda às 5h da manhã, para quem enfrenta três ônibus para chegar ao trabalho, para quem vive com o mínimo tentando garantir o máximo aos filhos.
Sabemos que o Brasil é grande. Mas não pode ser grande só no discurso. Tem que ser grande em humanidade. Em justiça. Em compaixão.
Estamos aqui. Ainda acreditando, mesmo feridos. Ainda votando, mesmo frustrados. Ainda sonhando, mesmo cansados.
Mas que fique registrado: o povo sabe. O povo vê. O povo sente. E um dia, o povo acorda.
Atenciosamente,
O Brasil que vocês prometeram representar.



