Campanha eleitoral ignora religiões afro, dizem eleitores

Os brasileiros que professam religiões de matriz africana e afro-brasileira chegam às eleições de 2026 com uma queixa recorrente: a sensação de que suas demandas continuam invisíveis para boa parte das campanhas políticas.

Embora o número de pessoas que se identificam com essas religiões tenha crescido significativamente no país, o segmento ainda encontra pouca representação no debate eleitoral. Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,8 milhão de brasileiros declararam seguir uma religião de matriz africana ou afro-brasileira — número três vezes maior que o registrado em 2010.

Mesmo assim, enquanto o eleitorado católico e evangélico é alvo de intensa disputa entre candidatos, os praticantes de religiões de terreiro permanecem, em grande medida, fora do radar das campanhas.

Para religiosos e pesquisadores, essa ausência não é casual. Ela estaria relacionada ao preconceito e à intolerância religiosa que historicamente atingem as tradições de matriz africana no Brasil.

A advogada e umbandista Lívia dos Santos afirma que ainda é difícil para os praticantes dessas religiões reconhecerem suas pautas e sua identidade representadas no ambiente político.

“É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos.”

Segundo Lívia, a dificuldade também está relacionada ao desconhecimento da sociedade sobre essas tradições, resultado de um longo processo de marginalização.

“A gente está falando, em última análise, de uma sociedade que não se permite conhecer essas religiões, justamente por todo o histórico de marginalização e criminalização dos povos que sempre cultuaram os orixás.”

Intolerância religiosa entra na agenda democrática

Para representantes do segmento, o combate à intolerância religiosa deveria ocupar espaço central nas discussões sobre democracia e direitos civis.

A legislação brasileira protege a liberdade religiosa e prevê punição para práticas de discriminação e impedimento do exercício de cultos. O enfrentamento à intolerância, portanto, não é apenas uma reivindicação específica dos povos de terreiro, mas uma questão relacionada ao direito fundamental à liberdade de crença.

Embora os praticantes de religiões de matriz africana representem uma parcela numericamente menor da população quando comparados a católicos e evangélicos, pesquisadores ressaltam que isso não deveria servir como justificativa para ignorar suas demandas políticas.

O pai de santo e pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), Leonardo Vieira, afirma que ainda existe, dentro da política institucional, uma visão equivocada sobre a capacidade de organização desse segmento.

“Há nichos da política que ainda concebem os povos de terreiro como inferiores.”

Organização política começa dentro dos terreiros

Para Vieira, outra percepção equivocada é a de que os povos de terreiro não possuem organização política própria. Na avaliação do pesquisador, essa organização faz parte do cotidiano das comunidades religiosas.

“Essa organização política começa dentro dos terreiros, nas suas relações comunitárias e coletivas de organização, economia, saúde, educação e tecnologia. É uma forma de fazer política diferente.”

Segundo ele, candidatos ligados às religiões de matriz africana ou que mantêm diálogo efetivo com essas comunidades são justamente os que conseguem mais. (Foto: Ag. Brasil)

Por Opinião em Pauta com informações da AgBR

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