Brasil pode estar na mira da política de cerco e chantagem de Trump

Henrique Acker  –   Os ataques dos EUA e Israel contra o Irã nada têm a ver com a democracia, com o programa nuclear do regime iraniano, a dignidade da mulher ou defesa do “mundo livre” contra o “eixo do mal”. O que está em jogo é tão somente a disputa pelo fornecimento de petróleo e a hegemonia econômica mundial.

Há um plano evidente de Trump para cercar, sufocar e submeter os principais países fornecedores de petróleo da China. Os chineses importam diariamente 10,27 milhões de barris de petróleo, para alimentar seu parque industrial em expansão.

 

Roteiro anunciado

O primeiro alvo foi a Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo. Além de promover um cerco naval e sequestrar o presidente Nicolás Maduro, o governo Trump exigiu uma política de fornecimento do petróleo venezuelano a preços mais baixos aos EUA.

Até a agressão dos EUA, a Venezuela exportava 80% de sua produção para a China, enquanto o Irã representava 11,5% do que o país consome. A Rússia é responsável por 19% e a Arábia Saudita responde por 14%, seguida pelo Iraque e a Malásia, com 12% do consumo de petróleo da China.

Agora é a vez do regime do Irã, um dos poucos que é forçado a priorizar o fornecimento de seu petróleo para a China. O isolamento e enfraquecimento do Irã também favorece ao regime de Israel, que expande seus domínios por todo o Oriente Médio.

A operação militar coordenada entre Washington e Tel Aviv, visa fragilizar ou derrubar o regime dos aiatolás, para estabelecer novas bases da venda de petróleo e, de quebra, conseguir uma governança que garanta o escoamento da produção de petróleo de todos os países árabes aliados dos EUA no Oriente Médio.

Apesar de não ser dos maiores produtores de petróleo (6º a 7º), o Irã possui grandes reservas e potencial para ampliar sua produção. Além disso, o país controla o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% da produção petrolífera do planeta.

 

 

Bolas da vez

Outro alvo já anunciado por Trump é a anexação da Groenlândia – que possui reservas de petróleo e gás ainda inexploradas -, sob o argumento de que se trata de um território estratégico para as pretensões navais da China e da Rússia. No entanto, isso representaria um confronto aberto com a União Europeia, a qual a pertence a Dinamarca, que responde administrativamente pela Groenlândia.

Quem será o próximo alvo da política externa de Trump? Não se assuste se for exatamente o Brasil. Nos últimos anos, mais da metade do petróleo brasileiro (56% em 2025) foi exportado para a China, enquanto a Rússia passou a ser o maior fornecedor de óleo diesel para o Brasil. O Brasil está entre os dez maiores produtores, com cerca de 4 milhões de barris/dia.

Hoje, os EUA figuram como o maior produtor mundial de petróleo, mas as reservas estadunidenses – cerca de 40 bilhões de barris – são pequenas e tendem a criar uma dependência econômica de outros países produtores.

 

Conter a China

A estratégia dos EUA, já anunciada pelo governo de Donald Trump, é evitar a expansão econômica e o aumento da influência geopolítica da China. A tática é cercar e pressionar os “aliados” da China, visando estrangular o fornecimento de combustível e abalar a economia chinesa.

É a forma de conter o avanço da chamada Nova Rota da Seda, política internacional anunciada por Pequim desde 2013. A mudança de regime no Irã pode comprometer um dos principais caminhos de exportação e importação da China.

O território do Irã é estratégico, justamente por ser um entroncamento entre a Ásia e a África, de onde é possível acessar o Mar Mediterrâneo, o mercado europeu e o Oceano Atlântico.

Até aqui a China tem mantido uma política externa de cautela, limitando-se a responder com maior dureza às manobras militares dos EUA e seus aliados que englobam Taiwan. Mas nos últimos anos vem se desfazendo de títulos da dívida estadunidense e aumentando suas reservas em ouro, o que pode provocar inflação e abalos na economia dos EUA.

 

 

Aliados em todo o Planeta

Para levar adiante seus planos, o regime de extrema-direita instalado em Washington estreita suas ligações com aliados em cada região do planeta. Na América Latina, Trump se articula com Javier Milei (Argentina) e deve ter o apoio de José Antonio Kast (Chile).

No Oriente Médio, conta com a liderança da Arábia Saudita e o poderio militar de Israel. Na Ásia, Trump trabalha com a aliança entre Japão, Coréia do Sul e Austrália, usando a “independência” de Taiwan como justificativa para suas provocações contra a China.

Na Europa, Trump tem na Grã-Bretanha um aliado histórico. Caso seja necessário conter o avanço da aliança entre Moscou e Pequim, os EUA devem costurar um acordo político e militar com a União Europeia, notadamente com a França e a Alemanha, maiores potências militares da UE.

 

Política “avestruz” não evitará pressões

Portanto, de pouco adiantam os elogios entre Trump e Lula, anunciando “uma química” entre os dois. A retórica de “paz e amor” do presidente do Brasil não se aplica ao cenário do tabuleiro de confronto mundial que se avizinha.

Tampouco terá qualquer valor a política de avestruz do governo brasileiro, que até aqui se nega a dar uma palavra mais dura contra o cerco militar e o ataque dos EUA contra a vizinha Venezuela e o aprofundamento do bloqueio econômico a Cuba.

Se os EUA seguirem a atual política externa de promover campanhas militares e chantagem contra os países que fornecem petróleo à China, o Brasil estará na linha de tiro. E a próxima eleição presidencial pode ser uma oportunidade para Trump chantagear e pressionar Lula.

Não faltarão candidatos da extrema-direita e parte da mídia empresarial dispostos a cumprir esse papel. A pressão interna também poderá ocorrer por parte da cúpula das Forças Armadas, cujos oficiais são formados há décadas sob a doutrina militar estadunidense. (Fotos: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Info Money, Euronews, UOL, Brasil247, BBC e CNN Brasil

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