Henrique Acker – Uma série de ataques promovidos contra eleitores de Lula foi registrada por todo o país a partir da noite de sábado (24/10). O clima se acirrou depois da confirmação da reeleição do presidente, no final de domingo (25/10).
Grupos bolsonaristas, inconformados, usaram de violência física e armada contra quem comemorava a vitória do candidato petista. Três pessoas perderam suas vidas por disparos e espancamentos.
A reação à derrota de Flávio Bolsonaro fez com que empresários de extrema-direita iniciassem uma campanha de demissões de trabalhadores que votaram em Lula. A prática é ilegal. Não se pode dispensar trabalhadores por sua escolha política e ideológica.
Incentivado por políticos do PL, como o deputado federal Nikolas Ferreira, o movimento de empresários bolsonaristas divulga listas de comerciantes simpáticos ao presidente Lula.
Espancamentos, tiros e mortes
Nas ruas, policiais militares e guardas municipais também reprimiram com violência os que festejavam o resultado da eleição em diversas cidades. Os casos de maior repercussão foram registrados em localidades onde o candidato da extrema-direita foi mais votado, nos estados do Sul e Centro-Oeste.
Em Bonito, Mato Grosso do Sul, um adolescente disparou um revólver e matou Ewerton Rodrigues da Silva, de 34 anos, num posto de combustíveis. Em Porto Esperidião, Mato Grosso, dois apoiadores de Lula foram assassinados a tiros também num posto de combustíveis.
Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, foi outra vítima fatal. Amigos e familiares acusam bolsonaristas pelo espancamento do engenheiro agrônomo, que saía de uma manifestação pró-Lula em Santos (SP).
O advogado da campanha do PT, Marco Aurélio Carvalho, condenou os ataques: “Nós sabemos, enfim, quem é o alvo preferencial desse ódio e dessa intolerância. Infelizmente, é isso que o bolsonarismo trouxe para o país”.
Leis proíbem demissão política
Empresários eleitores de Bolsonaro iniciaram uma campanha anunciando a demissão de trabalhadores que votaram no PT. Alguns estão gravando e expondo declarações nas redes sociais em que acusam os eleitores de Lula de serem contra os interesses das empresas.
Quem sofrer discriminação pode recorrer à Justiça do Trabalho. No curso do processo, cabe ao empregador provar que a demissão não foi baseada na orientação política do empregado.
O trabalhador pode ser reintegrado à empresa com pagamento de salários retroativos, além de obter indenização em dobro. O empregador também corre o risco de ser condenado por danos morais.
É o que preveem a Constituição Federal e a Lei 9.029/95. Ambas proíbem qualquer forma de discriminação no ambiente de trabalho, inclusive por opiniões ou convicções político-ideológicas. A demissão por motivos políticos é vedada pela Convenção 111 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.

Boicote lembra prática nazista
Outros empresários estão anunciando nas redes sociais que não vão mais participar com donativos de qualquer tipo de campanha de solidariedade. “Estamos cansados de ajudar quem não quer ser ajudado e preferem viver dos auxílios do governo”, diz um comunicado de uma empresa de S. Paulo.
Bolsonaristas de cidades de diversos estados estão publicando listas de empresas cujos proprietários seriam simpáticos ou eleitores de Lula. Eles fazem campanha para que os consumidores deixem de comprar nos estabelecimentos citados.
No Espírito Santo, além de Vitória, essa iniciativa já existe nas cidades de Venda Nova do Imigrante, Barra de São Francisco e Castelo. A prática lembra o boicote aos estabelecimentos comerciais de judeus na Alemanha nazista, iniciado em 1933, assim que Hitler assumiu.
Políticos bolsonaristas incentivam campanha
A iniciativa patronal é incentivada por políticos bolsonaristas.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) escreveu em uma de suas contas nas redes sociais: ”O movimento começou: demita os verdadeiros extremistas de sua
empresa. Denuncie”.
A deputada estadual Índia Armelau (PL), mais votada do Rio de Janeiro, aderiu ao movimento. “Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez ‘L'”, dizia o texto que publicou nas redes. Armelau ainda questionou a manutenção de funcionários que “odeiam empresários”.
Jessicão, deputada eleita pelo PL de Londrina (PR), sugeriu em publicação no X: “Você tem uma empregada que é petista? DEMITA! Tem um funcionário que é petista? DEMITA!” A parlamentar recomendou o rompimento de relações com prestadores de serviços petistas.
O mesmo comportamento teve Ali Klemt, eleita pelo PL do Rio G. do Sul. Em postagem no Instagram, a deputada de extrema-direita escreveu: “Não contrate quem odeia empresário. Quem gera empregos merece respeito”. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da Constituição Federal, OIT, Lei 9.029/95, Congresso em Foco, Pleno News, A Gazeta (ES), Carta Capital, portal Migalhas.



