Bets inundam propaganda na TV e internet durante a Copa 2026

Henrique Acker –  O que antigamente era só um “bolão” entre amigos ou uma “fezinha” nas loterias esportivas assumiu escala global estrondosa com as plataformas virtuais de apostas pela internet, as chamadas bets. Os valores registrados em jogos de azar durante a Copa do Mundo 2026 podem chegar a 60 bilhões de dólares (R$ 310 bilhões).

O Brasil movimenta 10% deste mercado, perdendo apenas para os Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia. Só as empresas do setor de apostas esportivas faturaram R$ 12,2 bilhões no mercado brasileiro entre janeiro e abril de 2026, o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior, de acordo com a Receita Federal.

 

Publicidade de risco

O uso do anúncio testemunhal – quando o narrador ou comentarista chama o espectador a apostar – é proibido pela regulamentação publicitária que rege as casas de apostas digitais. Foi o que se viu de forma escancarada em transmissões de partidas da Copa pela CazéTV, até 26 de junho.

Um dos temas mais polêmicos da publicidade das bets é justamente o estímulo de apresentadores de programas de Rádio, TV e Internet, incentivando os espectadores a apostar de forma irresponsável ou a promessa de ganhos fáceis e certos.

Em função disso, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) recomendou, por meio de decisão liminar, a suspensão de três ações publicitárias de bets exibidas pelo grupo durante as transmissões da Copa do Mundo.

 

Legislação ainda é frouxa

A publicidade e o funcionamento das bets no Brasil são regidos pela Lei 14.790/2023 e pelas normas da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF). Mas há projetos em tramitação no Congresso Nacional que pretendem alterar as exigências e limitações previstas na atual legislação.

Apesar das regras aprovadas em 2025, o setor de apostas pela internet registra 187 aplicativos operando em território nacional, autorizados pelo Ministério da Fazenda. Das 85 plataformas legalizadas, dez delas concentram 60% do faturamento do setor.

Em 2025, o lucro das empresas regularizadas de apostas chegou a R$ 36,9 bilhões. Cerca de 25 milhões de CPF registraram movimentações em plataformas de apostas on-line, contra os 17 milhões identificados em 2024.

 

Bets e mídia

O diretor de Operações da SOFTSWISS Sportsbook, Alexander Kamenetsky, calcula que a atividade global de apostas pode dobrar em relação ao Mundial de 2022 – quando o volume foi de US$ 35 bilhões – podendo chegar a US$ 60 bilhões. Segundo ele, a ampliação da competição de 64 para 104 jogos cria novas oportunidades para apostas pré-jogo e ao vivo.

Para Stefano Andrade, CEO da BB Gaming, holding responsável pela bra.bet.br, a regulamentação ampliou a confiança dos consumidores e deve atrair novos participantes. “O crescimento não virá apenas do apostador recorrente, mas principalmente de milhões de brasileiros que terão seu primeiro contato com plataformas reguladas durante o torneio”, declarou.

As maiores empresas de apostas que atuam no Brasil investiram um total de R$ 327 milhões em mídia no primeiro trimestre de 2026.

A informação foi obtida num levantamento realizado pela empresa de monitoramento Tunad. A empresa avaliou as inserções na mídia da Betano, Superbet, Bet do Milhão, Betnacional, Bet365, Novibet, Esportes da Sorte, BetBoom e BETesporte.

 

 

Arrecadação de impostos

O levantamento da Tunad também monitorou o volume de buscas por essas empresas nas mídias digitais, apontando um total de 167 milhões de buscas nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2026. Esse número é 22% maior do que o apurado no trimestre anterior.

O volume de receitas e o consequente recolhimento de impostos pelas casas de apostas consolidadas chegam a rivalizar com setores tradicionais da economia, como a agricultura e a indústria do tabaco.

A carga tributária sobre elas é de cerca de 37% da receita. Com isso, a arrecadação de impostos federais alcançou R$ 4,5 bilhões em 2025. Só nos primeiros quatro meses do ano passado, o total arrecadado junto às Bets pela Receita Federal foi de R$ 2,2 bilhões.

 

Fidelização juvenil

O problema é que, além de angariar recursos junto aos tradicionais apostadores compulsivos em jogos de azar (adictos), as BETs estão fidelizando um público cada vez mais jovem, criando o endividamento infanto-juvenil descontrolado, o que ameaça a estabilidade financeira das famílias.

“Até aqueles que nem são tão interessados em esporte passam a acompanhar, torcer e se divertir com seus familiares e amigos”, afirma Marco Tulio, CEO da Ana Gaming. As apostas na Copa do Mundo vão muito além dos palpites sobre o placar do jogo ou quais seleções devem se classificar a cada etapa.

O que atrai o público mais jovem são as apostas especiais, as chamadas “bet builders”. Esse tipo de aposta permite combinar diferentes previsões em um único bilhete. Entre as opções mais procuradas estão número de gols, assistências, passes, desarmes, escanteios e até o pé utilizado para marcar.

Estudo da Creditas e da Opinion Box aponta que 56% dos brasileiros pretendem participar de apostas ou bolões durante a competição. Entre pessoas de 18 a 24 anos, esse percentual sobe para 70%. (Fotos: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de UOL Notícias, G1, Correio Braziliense (Capital S.A.), Folha de PE, Meio&Mensagem, Carta Capital e Poder 36

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