Belém, COP30: microguia para não iniciados na cidade (2)

Glauco Alexander Lima – Belém é quase uma ilha. Uma ilha fluvial, cercada de águas doces, salobras e às vezes teimosamente barrentas por quase todos os lados. Uma terra de rios que respiram. A região metropolitana abriga hoje mais de 2,5 milhões de habitantes, e tem apenas uma grande saída rodoviária: a BR-316. É como se Belém fosse um imenso navio ancorado no estuário amazônico, com um único trapiche que leva ao resto do país. Para uns, Belém é o fim do caminho. Para muitos outros é o começo, a porta da Amazônia, a primeira nota de um Brasil mais úmido, verde e humano.

O nome original da cidade, dado pelos colonizadores — ou invasores, dependendo do olhar político de quem narra — era Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Uma cidade com nome, sobrenome e fé. Mas pode chamar de Belém do Açaí, Belém do Tacacá, Belém da Guitarrada. Cada um escolhe o apelido conforme o afeto e o apetite.

E por falar em guitarrada: fala-se muito das delícias de Belém, mas uma das mais saborosas não se come — se ouve. A guitarrada se dança, se paquera, se suspira, se rebola. É ritmo e romance em forma de melodia. Nascida lá pelas bandas de Barcarena ( cidade da região metropolitana de Belém) nos anos 1970, a guitarrada mistura carimbó, cúmbia, merengue, bolero e Jovem Guarda. Um caldeirão musical temperado com eletricidade amazônica. No centro, a guitarra brilha como solista, conduzindo o baile.

Estar em Belém e não bailar uma guitarrada é como ir a Buenos Aires e não tentar um tango. E se Gardel foi o mito portenho, aqui quem reina é Mestre Vieira, o nosso profeta das cordas, só que sem a melancolia do Prata. A guitarrada é alegre, colorida, quase tropicalista — tem cheiro de chuva e gosto de romance.

Belém é, no fundo, uma caldeirada de ritmos — e de raças, crenças e sonhos. Uma cidade que sobrevive de se reinventar. E, nos últimos tempos, quem mudou o compasso foi justamente o anúncio da COP30, essa conferência global sobre as mudanças climáticas que já prometeu derreter até a frieza de certos corações tecnocráticos.

Belém, que vinha num compasso lento desde o fim do ciclo da borracha em 1945 — e que nem o minério de Carajás conseguiu fazer dançar —, voltou a pulsar.

 

 

Foram trinta anos de obras condensados em dois. A decisão de trazer a COP30 para cá provocou um boom de investimentos públicos e privados como não se via desde os tempos de nossos avós. De macrodrenagem nas periferias ao asfalto que chega às baixadas, de novos hotéis e centros de convenções a parques requalificados e orlas recuperadas, o mapa urbano começou a ganhar outra cor. Claro, não faltaram críticas, intrigas e preconceitos — sempre haverá quem ache que o Norte é longe demais para ser civilizado. Mas negar os ganhos de Belém com essa reunião planetária seria o mesmo que negar o amor pela vida!

Em pouco mais de dois anos, a cidade viveu o equivalente a três décadas de aceleração. E ainda que as receitas municipais tenham despencado nas últimas duas décadas, a fé de quem nasceu nesse chão de mangue e tajás continua firme — porque Belém resiste.

Mas é preciso mais do que conhecer Belém. É preciso entender Belém. Entender não apenas como se faz uma maniçoba belemense, um pato no tucupi ou um doce de bacuri,  que parece obra de alquimia do trópico úmido. É preciso entender o que foi a Cabanagem — talvez o mais bravo e trágico movimento popular da Amazônia, quando os cabanos tomaram o poder e quase refundaram o Pará. É preciso compreender como se deu a adesão tardia à Independência do Brasil, e o peso de séculos de escravidão indígena e negra que ainda ecoam nas desigualdades de hoje. Entender o papel dos europeus, árabes e japoneses que aqui aportaram com fé e mercadorias.

Aliás, poucos lembram que o Pará foi o terceiro estado que mais recebeu imigrantes japoneses no Brasil, depois de São Paulo e Paraná — e essa presença nipônica, discreta e disciplinada, deu à cidade uma sofisticação gastronômica que mistura bacuri com shoyu, tacacá com sushi, tambaqui com saquê.

Belém é o mundo todo — e ainda um pouco mais.

É cidade de chuva, de sol, de cheiro de jambu e som de pássaros, onde o povo reclama, mas canta. Sofre, mas dança. E acredita, com teimosia, que um dia a elite extrativista que levou tanto e devolveu tão pouco vai entender que o verdadeiro ouro da Amazônia não está só nas hidroelétricas e nem nas jazidas — está no povo.

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