Henrique Acker – O rombo do Banco Master, tido como o maior escândalo envolvendo o sistema financeiro no Brasil, tem consequências em diversas frentes da vida nacional e inúmeros envolvidos. Até aqui, as tramoias envolvendo o Master, o banco digital Will Bank e a Reag Investimentos somam cerca de R$ 51 bilhões.
Em Brasília, o novo ministro responsável pelo caso no STF, o bolsonarista André Mendonça, já dá mostras de que pretende manter a investigação do caso sem transparência. É a forma de evitar a pressão da opinião pública para uma apuração que leve aos responsáveis.
A conta deverá ser paga pelos brasileiros direta ou indiretamente, para repor as perdas dos fundos previdenciários de milhares de servidores públicos estaduais e municipais, e parte do valor do Fundo Garantidor de Créditos que cabe ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal.
A seguir, apresentamos um passo a passo do caso Master em nove pontos para a compreensão do leitor.
1 – ORIGEM E OPERAÇÕES FRAUDULENTAS DO MASTER – O Banco Master foi criado a partir da corretora Máxima, na década de 1970, e virou banco na década de 1990. Passando por dificuldades financeiras no começo dos anos 2010, a empresa passou para a gestão de Daniel Vorcaro em 2018 e o Master foi autorizado a operar em 2021.
Com sede na Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, o Banco Master passou de um patrimônio líquido de R$ 219 milhões para mais de R$ 5 bilhões em um período de apenas cinco anos.
Para esse crescimento meteórico, o Master prometia aos seus investidores taxas de remuneração de até 40% sobre Certificados de Depósitos Bancários (CDB), enquanto as demais instituições financeiras ofereciam de 10% a 12% aos compradores desses mesmos títulos.
No centro do esquema estava a Reag Investimentos, que reavaliava ativos de baixo valor do Master por preços inflados e reinvestia no mesmo Master, melhorando o balanço do banco de forma artificial.
2 – BOLSONARISTA NO BANCO CENTRAL NADA FEZ – Era uma crise de insolvência anunciada, uma situação insustentável, mas o Banco Central, sob a administração do bolsonarista Roberto Campos Neto, nada fez.
A insolvência do Master chegou a tal ponto que seriam necessários cerca de R$ 15 bilhões em captações de recursos para cobrir o rombo, mas Vorcaro só conseguiu levantar R$ 2 bilhões. Essa situação, de conhecimento do Banco Central desde 2021, era voz corrente entre os operadores do mercado financeiro.
Ainda assim, durante sua gestão, o ex-presidente do BC indicado no governo Jair Bolsonaro, Campos Neto, não enviou nenhuma proposta de voto sobre a situação do Master ao colegiado de direção do Banco Central.
As liquidações do Master e de outras instituições ligadas ao banco (Will Bank e Reag) só foram decretadas depois da saída de Campos Neto do BC. O rombo chega a cerca de R$ 51 bilhões, que deverão ser cobertos por recursos do Fundo Garantidor de Créditos, bancado pelos maiores bancos, incluindo o BB e a CEF.
3 – EMPRÉSTIMO CONSIGNADO PARA APOSENTADOS – Uma auditoria do INSS indicou que o Banco Master não conseguiu comprovar a legalidade de 251 mil contratos de empréstimos consignados (75% de um total de 338 mil investigados) para aposentados.
A investigação aponta que o banco continuou a receber descontos de mais de 250 mil contratos (somando cerca de R$ 2 bilhões), mesmo após o INSS não renovar o acordo para novos empréstimos.
4 – DINHEIRO PARA AS CAMPANHAS DE BOLSONARO E TARCÍSIO – A investigação da PF indicou a existência de laços profundos de Vorcaro/Master com a Igreja Batista da Lagoinha e o pastor André Valadão, incluindo a fintech Clava Forte Bank, vinculada ao Master, usada para receber doações.
O pai de Vorcaro apoiou a Rede Super, emissora da igreja, e sua irmã, Natália Zettel, é pastora na Lagoinha Belvedere. O empresário Fabiano Zettel (preso pela PF), cunhado de Vorcaro, é pastor da igreja e financiou projetos via banco.
Zettel foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) e Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) nas eleições de 2022. Consta que o governador de Minas Gerais, Romeo Zema (Novo), também teria recebido R$ 1 milhão de doação em nome do pai de Vorcaro.
5 – APOIO DO CENTRÃO – Dois dos principais líderes políticos do Centrão, Ciro Nogueira (Republicanos) e Antônio Rueda (União Brasil), fizeram gestões para evitar a falência do Master e tentar a negociação e venda do banco ao Banco Regional de Brasília (BRB).
Em abril de 2025, apesar de haver assinaturas suficientes de deputados e senadores, Nogueira – ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro – conseguiu evitar a CPMI que investigaria os negócios do banqueiro.
Nogueira chegou a apresentar a “emenda Master” à PEC que assegura autonomia financeira ao Banco Central. A intenção era ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, para as aplicações financeiras como o CDB, principal produto do banco de Vorcaro.
6 – GOVERNADORES E PREFEITOS NO ESQUEMA – Como consequência das boas relações de Daniel Vorcaro com políticos do Centrão e bolsonaristas, dois estados (Rio e Amapá), o distrito federal e 17 prefeituras compraram títulos podres do Banco Master.
Para isso, seus governantes, todos do Centrão e bolsonaristas, usaram os fundos de previdência dos servidores desses estados e municípios. O esquema consistiu na aquisição de Letras Financeiras, num total de R$ 1,8 bilhão, que não estão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos.
Entre os envolvidos estão o governador Clécio Luis, do Amapá, recentemente filiado ao partido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), e o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, que mantém excelentes relações políticas com Arthur Lira, ex-presidente da Câmara dos Deputados.
O Banco Regional de Brasília comprou R$ 12,2 bilhões em papéis podres do banco Master. No Rio, o governo de Cláudio Castro ordenou o investimento de R$ 1,371 bilhão com recursos do Rioprevidência num fundo vinculado ao Master.
Não satisfeito com a operação fraudulenta contra os fundos previdenciários de servidores públicos de estados e municípios, Daniel Vorcaro tentou a venda do Master para o BRB.
Para isso, contava com o apoio do governador bolsonarista Ibaneis Rocha (MDB). A compra do Master pelo BRB só não foi concretizada porque o Banco Central, já sob a gestão de Gabriel Galípolo, rejeitou a operação em 3 de setembro de 2025.
7 – PARCERIAS COM A MÍDIA EMPRESARIAL – A participação de grupos financeiros diretamente no controle acionário e na carteira de grandes anunciantes de grupos de mídia empresarial gera um conflito de interesses entre a informação aos leitores e a preservação do sistema financeiro.
O Will Bank – braço digital do Banco Master – firmou contrato de patrocínio com o Domingão, programa da Rede Globo, o que lhe garantiu entre oito e doze minutos de visibilidade por episódio. O investimento total foi estimado entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões, por um período de seis a oito domingos.
Não assusta que a cobertura de O Globo sobre o Master procure outros culpados pelo caso fora do sistema financeiro e de políticos do Centrão e do bolsonarismo. Uma das fontes da jornalista Malu Gaspar é o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, interessado diretamente na crise do Master.
8 – OFENSIVA CONTRA O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – A saída encontrada pelas oligarquias é tentar uma operação “abafa”, tirando de pauta e das manchetes dos jornais o escândalo do Master e seus envolvidos da direita e extrema-direita. Se não for possível, a meta será diluir responsabilidades entre todos os agentes políticos envolvidos e minimizar as perdas para o sistema financeiro.
Desde o início das investigações, a coluna de Malu Gaspar centrou suas atenções nas atividades do ministro Dias Toffoli, então responsável pelo caso no STF.
Com base em suposições e ligações superficiais de Toffoli com Vorcaro, foi montada uma campanha para retirá-lo do comando das investigações. Toffoli se viu forçado a abandonar o caso para preservar o STF. Em seu lugar, assumiu o ministro bolsonarista André Mendonça.
9 – VAZAMENTOS E NEGOCIAÇÃO NO CONGRESSO – A resposta do STF foi imediata. A partir do inquérito das notícias falsas, o ministro Alexandre de Moraes determinou à PF investigação sobre vazamento para a imprensa de dados fiscais dos demais ministros da corte e seus familiares.
Quatro funcionários da Receita Federal foram denunciados e há suspeita de que os vazamentos teriam o dedo da chamada “Abin Paralela” (bolsonaristas dentro da PF), e que seriam negociados com meios de comunicação.
Em suas primeiras decisões à frente do caso, André Mendonça determinou que as informações fiquem restritas ao grupo de policiais federais diretamente envolvidos na investigação. E também eximiu Daniel Vorcaro de depor em sessão da CPMI que apura as fraudes contra aposentados do INSS.
No Congresso Nacional, a extrema-direita simula indignação e disposição para apurar o caso Master. No entanto, nos bastidores, as lideranças bolsonaristas negociam com o Centrão a rejeição do veto do presidente Lula ao projeto que diminui a pena dos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Em troca, não haveria convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar o escândalo do Banco Master. (Foto: Redes Sociais)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)


