Aposentados são vítimas do assédio de bancos, financeiras e advogados

Henrique Acker   –  Cerca de 40 milhões de brasileiros estão entre os aposentados e pensionistas que recebem benefícios mensalmente pelo INSS. É a esse público que bancos, financeiras, entidades fantasmas e até escritórios de advocacia dirigem uma infinidade de ofertas todos os dias.

Apesar de a grande massa receber apenas um salário-mínimo, aposentados e pensionistas são bombardeados todos os dias por celular, com promessas de crédito consignado, cartões de crédito e outros produtos, por meio de ligações telefônicas e mensagens disparadas por SMS.

 

INSS privatizou pagamento

“Antes mesmo de confirmado o meu benefício pelo INSS, eu já estava recebendo ofertas de crédito de bancos e financeiras por SMS todos os dias, no meu celular. Hoje, recebo uma média de oito a dez ligações e mensagens diariamente”, declarou um recém-aposentado à nossa reportagem.

O sistema de pagamento da folha do INSS foi montado no governo Temer, através de um leilão promovido pelo INSS entre as instituições bancárias.

Venceram o leilão seis bancos e financeiras, entre eles o Itaú e a Crefisa. Na ocasião (2019), foi anunciado que os vencedores terão o direito de administrar o sistema por 15 anos, em troca de R$ 24 bilhões que entrariam no caixa do INSS por cinco anos.

“Soube que o INSS realiza leilões de lotes de pessoas que vão se aposentar entre os bancos. Meu benefício foi parar num banco privado e não entendo como o INSS entregou meus dados pessoais a empresas, desrespeitando inclusive o próprio banco público no qual tenho conta bancária”, diz a mesma fonte.

 

4,5 milhões de aposentados roubados

Desde o governo Temer, a prática de assédio aos aposentados e pensionistas se intensificou, a partir de descontos autorizados para 41 organizações criadas supostamente para defender os interesses dos idosos.

De acordo com levantamento da Controladoria Geral da União (CGU) e da Polícia Federal, que investiga o caso, essas organizações se apropriaram indevidamente de cerca de R$ 6,3 bilhões entre os anos de 2019 e 2024.

Onze dessas entidades – entre elas a Conafer, CBPA e a Anbec – tiveram aumento expressivo de filiados nos anos do governo Bolsonaro e no primeiro ano do governo Lula. Depois da apuração da CGU, em 2024, e das operações conduzidas pela PF este ano, todas tiveram seus acordos de cooperação e os descontos suspensos.

Calcula-se que cerca de quatro milhões e meio de brasileiros foram lesados, através de recursos subtraídos diretamente de seus benefícios sem o seu consentimento.

 

CPMI ouve envolvidos

Só agora, a partir de uma enxurrada de denúncias de aposentados e depois da apuração da CGU e da PF, em 2024 e 2025, os descontos diretos foram cancelados. Cerca de 3,5 milhões de idosos já conseguiram reaver os valores descontados indevidamente de seus benefícios, por conta de uma medida do governo.

Uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) foi instalada no Congresso Nacional para apurar o caso. Além de ex-ministros e ex-secretários da Previdência, estão sendo convocados representantes das organizações fantasmas, entre eles os chamados “golden boys”, novos ricos com os quais a PF apreendeu 26 carros importados, joias e relógios, dentre outros bens de luxo.

Em debate numa emissora de TV, o ex-ministro e atual senador Izalci Lucas (PL-DF) admitiu que tomou conhecimento do esquema e levou o caso ao então presidente Bolsonaro, logo no início de seu governo. Izalci, por sinal, foi visto em atitude amistosa ao lado do presidente da Conafer.

 

 

Cercado por todos os lados

O repórter Pedro Duran (CNN Brasil) apurou que existe um outro mercado que comercializa dados sigilosos de aposentados e pensionistas. Os compradores são advogados que atuam no setor, buscando captar clientes. A prática fere a Lei Geral de Proteção de Dados e a própria ética profissional.

Segundo Duran, o mercado de venda de dados é tão sofisticado que os golpistas chegam a entregar informações por cidade e até por bairro. Além da lista, os receptadores podem adquirir pacotes de disparo em massa de propaganda dirigidos às vítimas, oferecendo seus serviços advocatícios.

 

Bancos autorizaram descontos sem a ciência dos clientes

Bancos privados fizeram débitos automáticos que violam regras do Banco Central (BC) e expuseram aposentados do INSS a cobranças indevidas. Foi o que revelou recentemente uma reportagem do portal UOL. Os casos envolvem dezenas de milhares de correntistas do Bradesco, Itaú e Santander, os três maiores em operação no país.

De acordo com o UOL, o Bradesco fez débitos automáticos sem autorização de clientes para os clubes de benefício Sebraseg e o Binclub, que sequer são empresas financeiras. Outra beneficiada por este sistema foi a Paulista Serviços de Recebimentos e Pagamentos. Apesar de ser uma empresa financeira, ela não tem autorização do Banco Central para operar.

Na imagem destacada, carros importados e outros bens de luxo foram comprados com dinheiro subtraído de aposentados. (Foto: Reprodução)

 

 Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da Agência Gov de Notícias, G1, UOL Notícias e CNN Brasil

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