O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) que vai renunciar ao cargo. A decisão ocorre em meio a uma grave crise bancária, que provocou revolta entre os clientes de uma instituição financeira e desencadeou a abertura de um processo de impeachment contra o chefe de Estado.
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, Peña afirmou que a renúncia representa um dos momentos “mais difíceis” de sua vida. Segundo ele, a decisão foi tomada para preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.
“Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas”, declarou.
O presidente também afirmou que respeitará a Constituição paraguaia e os mecanismos institucionais. “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, acrescentou.
De acordo com a imprensa paraguaia, a renúncia ainda precisa ser aceita pelo Congresso Nacional, que deverá convocar uma sessão para deliberar sobre o assunto.
Impeachment ganhou força após perda de apoio político
A crise que atingiu o governo Peña se agravou após o fechamento do banco digital Ueno, que deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso aos próprios recursos.
Economista conservador, Peña tornou-se alvo de críticas por ter sido acionista do grupo controlador da instituição financeira. A oposição acusa o presidente de conflito de interesses e questiona a atuação do Banco Central paraguaio, apontado como responsável por supostamente encobrir irregularidades.
Nesta quinta-feira, o Congresso iniciou uma sessão extraordinária para discutir o pedido de impeachment. Todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram apoio à abertura do processo.
A ofensiva política ganhou força após Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado — legenda de Peña — e considerado seu principal mentor político, retirar o apoio ao governo. Aliados do presidente passaram a defender publicamente sua renúncia e a apoiar o impeachment.
O presidente do Congresso, Basilio Núñez, também integrante do Partido Colorado, havia se afastado politicamente de Peña.
O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados da oposição, que solicitaram a convocação da sessão extraordinária. A iniciativa representa o primeiro passo formal para o afastamento do presidente.
Peña assumiu o governo em 2023, com mandato previsto até 2027.
Acusações contra o presidente
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. Também sustenta que o Banco Central teria omitido ou encoberto irregularidades relacionadas ao Ueno.
Durante a sessão extraordinária, a deputada oposicionista Rocío Vallejo fez duras críticas ao presidente.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”, afirmou.
Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março de 2025. A instituição, controlada pelo Grupo Vázquez, concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O banco encerrou suas atividades na terça-feira (3), após o Banco Central iniciar o processo de liquidação. A autoridade monetária identificou insuficiência de recursos para cobrir as obrigações da instituição, situação relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio banco.
Executivos presos e bloqueio de bens
A crise também avançou para a esfera judicial. Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que formalizou acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição.
A Justiça determinou ainda o bloqueio dos bens dos investigados.
Em meio à turbulência, Peña afirmou nas redes sociais que todos os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder perante a Justiça, sem exceções.
A declaração foi publicada pouco antes da promulgação de uma lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seus recursos de maneira mais rápida.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou o presidente.
Temor de contágio no sistema financeiro
O colapso do Ueno provocou preocupação em todo o sistema bancário paraguaio. Na quarta-feira, relatos de falhas nos aplicativos de outras instituições financeiras ampliaram o temor de que a crise pudesse se espalhar.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições estavam trabalhando para absorver o grande volume de clientes que buscavam transferir suas contas do Ueno.
A entidade, no entanto, assegurou que o sistema bancário do país continuava “operando normalmente”. (Foto: AFP)
Por Opinião em Pauta com informações da AFP



