O governo brasileiro mantém uma postura cautelosa diante dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei. Antes de adotar medidas concretas, o Planalto considera necessário aguardar o avanço das investigações sobre a saída do país do senador Flávio Bolsonaro, derrotado na eleição presidencial, em um episódio que envolve os dois governos estrangeiros.
A avaliação é de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve evitar, por enquanto, manifestações públicas sobre o caso. Na visão do Planalto, uma reação antecipada poderia beneficiar a oposição brasileira e, particularmente, Milei, que enfrenta um novo ciclo eleitoral no próximo ano e teria interesse em explorar politicamente o episódio para fortalecer sua posição interna.
Em relação a Trump, a expectativa do governo brasileiro é de que não haja mudanças significativas antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as chamadas midterms, previstas para a próxima terça-feira. A votação renovará as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado.
O governo Lula aposta em um avanço dos democratas, com a possibilidade de conquistarem maioria nas duas Casas do Congresso americano. Um resultado desse tipo poderia reequilibrar as forças políticas em Washington e impor novos obstáculos à agenda do presidente republicano.
Interlocutores de Lula avaliam que até mesmo uma maioria democrata na Câmara dos Representantes já seria um resultado positivo para o Brasil. Com maior poder parlamentar, a oposição a Trump poderia ampliar a pressão sobre a Casa Branca, especialmente em temas relacionados às grandes empresas de tecnologia e aos minerais críticos.
A expectativa brasileira também é de que uma mudança na correlação de forças do Congresso americano facilite as negociações comerciais, inclusive em torno do chamado tarifaço imposto por Washington.
Na avaliação da diplomacia brasileira, as midterms também marcarão o início das articulações em torno da sucessão de Trump. O resultado das eleições poderá influenciar o cenário político americano e limitar, ou ampliar, a margem de atuação do atual presidente nos próximos anos.
Outro fator considerado pelo Planalto é a postura ambígua de Trump diante da vitória de Lula nas eleições brasileiras. O republicano não parabenizou o presidente reeleito, mas também não manifestou apoio a Flávio Bolsonaro.
A posição é interpretada pelo governo brasileiro como um sinal de que o resultado das urnas se impôs e dificilmente poderá ser ignorado pelos Estados Unidos. A leitura é de que Trump tenta preservar seus aliados políticos sem comprometer os interesses estratégicos americanos na América Latina, sobretudo no Brasil.
Nesse contexto, o governo Lula não acredita que Washington possa tratar Flávio Bolsonaro como um interlocutor legítimo do Estado brasileiro. Além da derrota eleitoral, sua permanência fora do país reduziria ainda mais sua capacidade de exercer qualquer papel institucional nas relações entre Brasília e Washington.
A estratégia do Planalto, portanto, é evitar o confronto prematuro, acompanhar os desdobramentos das investigações e aguardar os efeitos das eleições americanas antes de definir os próximos passos diplomáticos. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da Reuters


