Os Corleones de linho branco e o eterno compadrio brasileiro

Lady  Whistledown  –  Quem conhece os rincões do Brasil sabe que o país real não cabe nos relatórios oficiais. Ele aparece na soleira de uma porta de madeira, na conversa de quem espera por uma consulta médica que não chega, na fila que atravessa a manhã ou no silêncio de quem aprendeu a medir as palavras por medo de desagradar à pessoa errada.

É nesse Brasil, onde o Estado muitas vezes chega tarde, quando chega, que a ficção de Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão, ganha um sotaque familiar. Assisti à história dos Corleones incontáveis vezes. E há algo naquele universo que continua me chamando a atenção: por trás dos códigos de honra, dos favores e dos juramentos de lealdade, existe uma disputa permanente pelo controle da vida alheia.

A cena de abertura do filme é reveladora. Um homem procura Don Corleone porque já não acredita que os tribunais possam lhe fazer justiça. Vai até o padrinho pedir aquilo que o Estado não conseguiu garantir. Não procura uma instituição. Procura alguém com poder suficiente para resolver seu problema.

Quantas vezes essa cena se repete, com outros personagens, em cidades e povoados brasileiros?

Quando a justiça demora, o serviço público não funciona e os direitos dependem de quem se conhece, o favor ocupa o lugar da cidadania. O cidadão deixa de cobrar aquilo que lhe é devido e passa a pedir ajuda a quem pode conceder. É uma mudança aparentemente pequena, mas decisiva: quem depende de um favor também fica sujeito à vontade de quem o concede.

É assim que o poder pessoal se fortalece. Nem sempre pela ameaça explícita. Às vezes, basta controlar a consulta, o emprego, o transporte, a obra, a vaga ou o acesso a um benefício. O domínio se estabelece quando alguém passa a acreditar que sua vida depende da boa vontade de outro.

O problema não é apenas a ausência do Estado. É a maneira desigual como ele se faz presente. Em determinados territórios, falta atendimento médico, escola em condições adequadas e assistência social. Em outros momentos, porém, a máquina pública aparece com rapidez para cobrar, fiscalizar ou reprimir. Entre uma coisa e outra, prosperam os intermediários do poder, aqueles que se apresentam como solução para problemas que deveriam ser resolvidos como direitos.

Raimundo Faoro examinou uma das raízes históricas dessa engrenagem em Os Donos do Poder. Sua análise do patrimonialismo ajuda a compreender uma prática que o Brasil nunca conseguiu superar inteiramente: tratar aquilo que pertence à coletividade como se fosse patrimônio de quem ocupa o governo.

O tempo passou. Mudaram os palácios, os partidos, os discursos e os figurinos. Mas a confusão entre o público e o privado continua encontrando espaço na política brasileira.

Os chefões de hoje não precisam de escritórios escuros nem de reuniões clandestinas. Podem circular pelos corredores do poder à luz do dia, posar para fotografias oficiais e discursar em defesa da democracia. O compadrio, quando institucionalizado, dispensa até mesmo a aparência de segredo. Basta observar as disputas por cargos, a distribuição de verbas, as negociações de bastidores e os esforços para preservar aliados, mesmo quando o interesse público deveria falar mais alto.

Nem toda negociação política é ilegítima. Democracias exigem diálogo, acordos e construção de maiorias. A fronteira é ultrapassada quando o interesse coletivo vira moeda de troca, quando recursos públicos são tratados como propriedade de grupos e quando a lealdade pessoal vale mais do que a responsabilidade diante da sociedade.

É nesse ponto que a imagem da máfia deixa de ser apenas uma comparação cinematográfica. A omertà, o código de silêncio associado à máfia italiana, encontra seu equivalente político sempre que o silêncio vale mais do que a apuração, a proteção dos aliados se sobrepõe aos fatos e a conveniência de um grupo fala mais alto do que a obrigação de prestar contas.

Não é preciso transformar o Congresso em cenário de filme para reconhecer o problema. Basta perguntar quem ganha com determinadas decisões, quem paga a conta e quem responde quando o dinheiro público é mal utilizado.

Michael Corleone, por sua vez, representa a tentativa de conferir legitimidade aos negócios da família sem romper de fato com a lógica que os sustenta. A mudança de aparência não significa, necessariamente, mudança de natureza. É uma das questões mais incômodas da saga: até que ponto alguém consegue entrar no mundo respeitável sem levar consigo as práticas que o tornaram poderoso?

O Brasil também gosta de apresentar sua melhor versão ao mundo. Fala em modernização, sustentabilidade, segurança jurídica e desenvolvimento. E tem razões para fazê-lo: o país reúne riquezas naturais, capacidade produtiva e uma sociedade que não cabe nos estereótipos da corrupção. Mas a distância entre o discurso e a realidade continua cobrando seu preço.

Quando obras públicas são superfaturadas, o garimpo ilegal avança sobre terras indígenas, o desmatamento alimenta negócios clandestinos ou o financiamento político esconde interesses privados, a questão não se resume à existência de ilegalidades. O que importa é saber quais mecanismos permitem que essas práticas sobrevivam, quem se beneficia delas e por que a responsabilização tantas vezes parece caminhar mais devagar do que os interesses que deveria conter.

A aparência de legalidade, sozinha, não garante que o interesse público esteja sendo respeitado. Um sistema pode cumprir os ritos, produzir documentos e manter as portas abertas enquanto preserva relações de privilégio que esvaziam o sentido das instituições.

Não acredito que o Brasil seja um Estado falido. Tampouco me parece suficiente explicar seus problemas apenas pela polarização política. A divisão entre campos ideológicos é real, mas o compadrio atravessa fronteiras partidárias. Ele muda de discurso conforme a ocasião e encontra abrigo onde houver disposição para confundir poder com propriedade.

Talvez seja esse o aspecto mais persistente da nossa história política: as estruturas de privilégio demonstram uma capacidade extraordinária de adaptação. Quando são pressionadas, recuam. Quando a pressão diminui, se reorganiza . Às vezes, incorporam o vocabulário da mudança sem abrir mão das práticas de sempre.

E o cidadão, que deveria ser o destinatário de toda a ação pública, continua esperando. Espera pela consulta, pelo saneamento, pela escola, pela estrada e por uma resposta que não dependa de conhecer alguém importante.

No cinema, Don Corleone oferece proteção em troca de lealdade. Na vida pública, a democracia deveria funcionar de outra maneira: direitos não se compram com obediência, serviços não dependem de padrinhos e o dinheiro coletivo não pertence a quem controla sua distribuição.

É por isso que a imagem dos Corleones de linho branco me parece tão brasileira. O poder não precisa andar armado, falar alto ou esconder o rosto para impor sua vontade. Às vezes, veste um terno impecável, aperta mãos, distribui sorrisos e chama de articulação aquilo que deveria ser explicado à sociedade.

O linho é branco. A aparência é respeitável. A pergunta, porém, continua a mesma: quem esse poder serve?  quem continua do lado de fora, esperando por justiça?  (Foto: Reprodução / Internet)

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