O governo brasileiro avalia que ações dos Estados Unidos com potencial de influenciar as eleições presidenciais de 2026 já estão em curso e podem ganhar intensidade até um eventual segundo turno. Segundo essa avaliação, Washington atuaria em pelo menos quatro frentes — da pressão política pública à movimentação nas redes sociais e a contatos com grupos conservadores brasileiros.
A preocupação ganhou força depois que um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado no fim de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), classificou como crítico o risco de influência externa dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro.
Pressão política de Trump e Marco Rubio
A primeira frente acompanhada pelo governo envolve manifestações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do secretário de Estado, Marco Rubio.
No Planalto, a avaliação é de que o Brasil pode enfrentar movimentos semelhantes aos registrados recentemente em outros países latino-americanos, onde Trump interferiu no debate eleitoral ao manifestar preferência por candidatos conservadores.
Na eleição de Honduras, realizada em novembro de 2025, Trump declarou apoio a Nasry “Tito” Asfura e atacou a candidata de esquerda Rixi Moncada.
O movimento voltou a ocorrer na Colômbia. Em junho deste ano, Trump declarou publicamente apoio ao candidato conservador Abelardo de la Espriella, que disputava o segundo turno contra Iván Cepeda. O presidente americano apresentou De la Espriella como um líder forte e fez críticas contundentes ao adversário de esquerda.
Suspeitas de impulsionamento a partir do exterior
Outra frente envolve as redes sociais. Integrantes da campanha do PT suspeitam da existência de impulsionamentos pagos a partir do exterior para ampliar conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro.
A suspeita também foi levantada pelo candidato do Missão, Renan Santos. O PT avalia que uma estratégia semelhante teria sido empregada na eleição colombiana, com forte circulação de conteúdos favoráveis a De la Espriella.
Até o momento, porém, as suspeitas de financiamento ou impulsionamento estrangeiro não foram comprovadas publicamente. A campanha de Flávio Bolsonaro nega receber esse tipo de apoio.
Rockbridge entra no centro das acusações
A terceira frente diz respeito à Rockbridge Network, organização conservadora dos Estados Unidos associada, entre outros nomes, ao vice-presidente americano J.D. Vance.
Renan Santos acusou o grupo de participar indiretamente do financiamento da campanha de Flávio Bolsonaro. A acusação foi posteriormente incorporada ao debate pelo PT.
Reportagem da Folha de S.Paulo registrou que Renan fez a acusação sem apresentar provas. Tallis Gomes, apontado pelo candidato como possível elo com a Rockbridge, confirmou ser membro da organização, mas negou exercer função de gestão, participar da campanha de Flávio ou ter feito doações a candidatos ou partidos.
A legislação eleitoral brasileira proíbe que partidos e candidatos recebam recursos de origem estrangeira.
Encontros com influenciadores brasileiros
A quarta frente acompanhada por integrantes do governo envolve encontros entre autoridades americanas e influenciadores brasileiros ligados à direita.
Petistas avaliam que essas reuniões também serviriam para transmitir posições do governo dos Estados Unidos sobre o cenário político e eleitoral brasileiro. Oficialmente, porém, os encontros tiveram como temas liberdade de expressão e ambiente digital.
Abin vê escalada da pressão americana
O alerta ganhou dimensão institucional com o relatório da Abin sobre ameaças ao processo eleitoral de 2026.
Segundo informações divulgadas sobre o documento, a agência identifica uma tendência de aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil e relaciona essa movimentação à estratégia de Washington de reduzir a influência de potências rivais — especialmente a China — na América Latina.
O documento menciona interesses envolvendo ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura e aponta uma reconfiguração da pressão americana sobre o Brasil.
Na avaliação do governo brasileiro, a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China coloca o Brasil em posição central. Brasília mantém uma relação econômica e diplomática relevante com Pequim, enquanto Washington busca ampliar sua influência política e estratégica no continente.
O tema chegou também à Assembleia Geral das Nações Unidas. Em discurso nesta terça-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a soberania brasileira e a rejeitar interferências estrangeiras em processos eleitorais.
A preocupação do Planalto, portanto, não está restrita às urnas ou às campanhas nas redes sociais. Ela se insere numa disputa geopolítica mais ampla, na qual o Brasil passou a ocupar posição estratégica entre Washington e Pequim — e na qual cada movimento externo sobre a eleição brasileira tende a ser observado de perto pelas instituições do país. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da CNN



