Em artigo publicado no Financial Times, presidentes e primeiro-ministro alertam para avanço dos conflitos, aumento dos gastos militares e fragmentação política; iniciativa pretende reformar instituições multilaterais
(OP/ Redação ) – O mundo está mais conectado, mas também mais dividido. É diante dessa contradição que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o presidente do Quênia, William Ruto, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, defendem uma nova etapa de cooperação internacional.
Em artigo publicado neste domingo (20) pelo Financial Times, os quatro líderes afirmam que o multilateralismo deixou de ser apenas uma defesa diplomática ou um ideal político. Tornou-se, segundo eles, uma necessidade diante de crises que atravessam fronteiras e não podem ser enfrentadas isoladamente por nenhum país.
A posição será levada à cúpula da iniciativa Partners for Multilateralism (P4M), que ocorrerá em Nova York durante a semana de alto nível da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas.
A proposta reúne países de diferentes regiões e tradições políticas em torno de uma agenda comum: fortalecer a cooperação internacional e reformar as instituições multilaterais para que sejam mais representativas, legítimas e eficazes.
Um mundo mais conectado e mais fragmentado
Para Lula e os demais líderes, o cenário internacional vive uma contradição cada vez mais evidente. Economias, tecnologias e sociedades estão profundamente interligadas, mas a política mundial avança na direção oposta, marcada por disputas, conflitos e fragmentação.
Guerras, mudanças climáticas, pandemias, inteligência artificial, instabilidade financeira e problemas nas cadeias globais de abastecimento já produzem efeitos que ultrapassam fronteiras.
Nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue enfrentar sozinho esse conjunto de desafios.
É nesse contexto que surge a P4M. A iniciativa não pretende criar um novo bloco político nem uma estrutura burocrática adicional. A intenção, segundo os signatários, é formar uma rede aberta e flexível de países dispostos a construir coalizões e transformar princípios comuns em ações concretas.
Conflitos e gastos militares em alta
O artigo também alerta para a deterioração do ambiente internacional.
Segundo os autores, os conflitos entre Estados atingiram, em 2025, o maior nível desde 1946. No mesmo período, os gastos militares globais chegaram a US$ 2,9 trilhões.
Para os quatro líderes, esse cenário não deve levar ao abandono das instituições criadas depois da Segunda Guerra Mundial. A resposta, defendem, deve ser justamente o contrário: reformá-las para que consigam responder às transformações ocorridas nas últimas oito décadas.
A ONU e outras organizações multilaterais, segundo a proposta, precisam ganhar representatividade e capacidade de ação, ao mesmo tempo em que devem ser fortalecidas as relações entre instituições globais e organizações regionais.
Reforma da governança global
A P4M pretende atuar em áreas consideradas estratégicas para o futuro da cooperação internacional: paz e segurança, governança econômica, mudanças climáticas, saúde, inteligência artificial e transformação digital.
A proposta também busca criar mecanismos de diálogo capazes de reconstruir a confiança entre países em um momento de crescente disputa geopolítica.
António Costa sintetizou essa visão durante a preparação para a cúpula ao afirmar que nenhum país conseguirá enfrentar sozinho os desafios atuais.
“A cooperação não é um ato de idealismo — é uma necessidade e uma questão de sobrevivência”, afirmou.
A cúpula ocorrerá paralelamente à Assembleia Geral da ONU e deverá reunir governos interessados em discutir caminhos para ampliar a cooperação internacional.
A mensagem de Lula, António Costa, William Ruto e Mark Carney é direta: diante de guerras, crises climáticas, transformações tecnológicas e instabilidade econômica, a resposta não pode ser cada país por si.
Em um planeta cada vez mais interdependente, a tentativa de resolver problemas globais isoladamente pode ser justamente o caminho para agravá-los. (Foto: Reprodução / G1)



