Henrique Acker – Três figuras cumpriram papéis de destaque nos momentos de maior tensão política e de enfrentamento com a extrema-direita nos últimos anos no Brasil. Nenhuma delas têm as mesmas origens e sequer os mesmos objetivos políticos.
Duas estão justamente no Supremo Tribunal Federal, alvo dos ataques mais raivosos dos bolsonaristas. Outra utilizou seu mandato para enfrentar os desmandos e denunciar o esquema de uso de emendas por parlamentares bolsonaristas e do Centrão na Câmara dos Deputados.
Investigou o golpe e condenou militares
Coube ao ministro Alexandre de Moraes, indicado por Michel Temer, conduzir o TSE durante o processo eleitoral de 2022, momento de grande tensão política.
Sob sua investigação, foi desmascarada a rede de mentiras e calúnias forjadas e difundidas nos principais canais bolsonaristas na internet, inclusive contra o sistema de urnas eletrônicas.
Moraes respondeu à altura, com o inquérito das fake news, condenando alguns dos maiores porta-vozes da extrema-direita na ocasião, o que os levou a fugir do país.
Em resposta, o bolsonarismo produziu um espetáculo de baixaria e ofensas pessoais contra o ministro e sua família num aeroporto da Itália.
Mais adiante, o nome de Moraes aparecia no plano dos golpistas (Punhal Verde e Amarelo) como um dos três que pagariam com a vida, se a tentativa de golpe fosse bem-sucedida em 8 de janeiro de 2023. Os outros dois eram o presidente Lula e o vice Geraldo Alckmin.
Seguiu-se a investigação sobre a tentativa de golpe, que tinha até um roteiro numa minuta encontrada em computadores dos golpistas. Entre as falsas alegações, os que promoveram a conspiração davam a entender que se tratava apenas de manifestações legítimas de protesto.
O país assistiu a depoimentos patéticos de ex-militares que tramaram o golpe, com o apoio dos oficiais que comandavam os quartéis. Todos negando seu envolvimento direto na trama.
O mais grotesco do julgamento foi o depoimento do próprio Jair Bolsonaro, que desconversou, condenou a ação de alguns “malucos” e ofereceu a Moraes a vaga de vice na eleição de 2026. Na ocasião, Bolsonaro reconheceu que recebeu doações que chegaram a R$ 18 milhões em pix.
Pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente, ex-ministros e um ex-presidente foram condenados a cumprir pena por ações golpistas.

Ministro barrou bilhões em emendas do “orçamento secreto”
No campo progressista, destaca-se a atuação firme no propósito e nas convicções, do ministro Flávio Dino, sempre com base na Constituição e na legislação.
Durante a tentativa de golpe, em 8 de janeiro, o então recém-nomeado ministro da Justiça comandou a reação do governo a partir de Brasília. Dino promoveu a intervenção no governo do Distrito Federal, convocou a Polícia Federal e ordenou a retomada da Esplanada dos Três Poderes pela PM.
Nas sabatinas que enfrentou no Congresso Nacional, Flávio Dino desmontou os argumentos da extrema-direita, que tentou minimizar a relevância dos atos de 8 de janeiro de 2023. É dele a frase “Golpe mata”, que usou para alertar a sociedade sobre a gravidade dos fatos e suas possíveis consequências.
No STF, Dino abriu inquérito para investigar possíveis desvios na distribuição de recursos públicos, através de emendas parlamentares. Entre elas as chamadas “emendas pix”, sem destinação definida por convênios ou projetos, além das emendas de “lideranças”.
Como consequência das investigações que solicitou à PF, foram barradas ou bloqueadas 5.449 emendas em 2024, no valor de R$ 4,2 bilhões. Em 2025, foram barrados R$ 695 milhões em emendas sem cadastro nos sistemas oficiais do governo.
Em 2026 foram bloqueados outros R$ 125 milhões em emendas por indicação de Valdemar da Costa Neto (PL) e Eduardo Cunha (Republicanos), que sequer são deputados.
Juiz concursado e de carreira, Flávio Dino foi deputado e governador do Maranhão. Ex-ministro da Justiça do governo Lula, é uma das figuras de destaque no Supremo Tribunal Federal, para o qual foi indicado em dezembro de 2023.
Uma voz combativa na Câmara dos Deputados
No Congresso Nacional uma voz se destacou no parlamento. Foi a do deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ), que instou o Supremo Tribunal Federal a apurar denúncias sobre as emendas do chamado “orçamento secreto” na Câmara, ainda sob a presidência de Artur Lira.
O deputado ficou conhecido por ter cunhado a expressão “juiz ladrão” para definir Sérgio Moro – pelo resultado da Operação Lava-Jato, que condenou Lula – e por acusar Eduardo Cunha de “gangster” e Arthur Lira de “bandido” na tribuna da Câmara.
Glauber foi punido por seis meses de suspensão de seu mandato, sob a acusação de ter dado um chute num militante do MBL, que o perseguia com provocações, inclusive com acusações e infâmias contra a própria mãe do deputado.
A ameaça de cassação de seu mandato não o intimidou. Glauber seguiu denunciando a tentativa da extrema-direita de calar sua voz, instigada por Arthur Lira. O ex-presidente da Câmara jamais o perdoou pela campanha que fez contra o desvio de dinheiro público, sob o disfarce de “emendas parlamentares”.
“Se eu aceito ser derrotado pelo poder da grana, isso representará um estímulo pra perseguirem outras lideranças e mandatos populares espalhados pelo país. Por isso, resisto!”. Foi um de seus pronunciamentos durante a greve de fome de nove dias que fez contra a ameaça de cassação de seu mandato em 2025. (Foto: Montagem / Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



