O periódico britânico The Guardian divulgou na terça-feira (14/07) um artigo de opinião que sustenta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz uso de alegações comerciais e imposições tarifárias em relação ao Brasil como uma maneira de questionar a independência do país.
O governo dos Estados Unidos deve revelar até esta quarta-feira (15/07) se irá impor novas tarifas ao Brasil, como parte de uma ampla investigação sobre práticas comerciais que a Casa Branca considera desleais — entre elas, críticas ao Pix.
“A perspectiva de tarifas impostas por Donald Trump caracteriza as tentativas do Brasil em salvaguardar sua democracia como uma forma de concorrência desleal — além de proporcionar ao bolsonarismo uma visibilidade em Washington”, destaca o editorial do periódico.
O periódico reporta que “Trump desconsidera a argumentação” apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa da autonomia do Brasil.
“Lula deseja que o Brasil possua a habilidade de monitorar a desinformação antidemocrática interna. Por sua vez, Trump defende que os EUA deveriam exercer controle sobre o espaço informativo nacional”, afirma o editorial.
O texto enfatiza que, em junho deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) “respondeu às informações falsas na internet que contribuíram para a malsucedida tentativa de golpe de extrema-direita comandada por Jair Bolsonaro em 2023”.
Remover conteúdo
O Guardian informa que o STF determinou que as redes sociais podem ser responsabilizadas por publicações de determinados usuários, forçando empresas como a X, de Elon Musk, e a Meta, de Mark Zuckerberg, a eliminar discursos de ódio e conteúdos que vão contra a democracia.
Um mês após, Donald Trump sugeriu a imposição de uma tarifa de 25% sobre os produtos importados do Brasil, reclamando que juízes forçaram empresas de tecnologia norte-americanas a remover conteúdo ‘político’ da internet, segundo informou o jornal britânico.
O artigo também menciona os ataques dos Estados Unidos ao Pix.
“Uma outra questão relacionada à soberania envolve quem detém o controle da infraestrutura financeira no Brasil e se há viabilidade para uma infraestrutura pública de pagamentos eficaz na América Latina que não esteja sob a influência dos Estados Unidos”, afirma o periódico.
De maneira semelhante à Índia, o Brasil desenvolveu uma infraestrutura digital pública [o Pix] com o objetivo de diminuir a dependência de sistemas de pagamento operados por entidades estrangeiras e salvaguardar seu próprio sistema de pagamentos de pressões ou sanções externas. Na prática, essa plataforma elimina a necessidade das redes de cartões como Visa e Mastercard, colocando em risco os lucros dessas companhias.
Lula: político mais eficaz do século
O editorial do Guardian menciona também as eleições no Brasil, destacando que Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lideram nas sondagens.
“[Flávio] Bolsonaro pode não ter o mesmo carisma que seu pai, mas fundamenta-se na mesma rejeição simplista à esquerda, nas mesmas políticas punitivas de ‘lei e ordem’ e nas mesmas batalhas culturais da extrema-direita”, destaca o periódico.
O Guardian destacou que a solicitação de Flávio Bolsonaro a Trump para que não imponha tarifas ao Brasil até as eleições de outubro foi considerada “muito ousada”.
Lula é considerado um dos políticos mais eficazes do século atual.
“De trabalhador a dirigente sindical e criador de um partido, Lula transformou a redistribuição na essência da democracia no Brasil. O número de pessoas vivendo em pobreza extrema diminuiu de 30 milhões em 2002 para menos de 7 milhões agora. Ele esteve no poder de 2003 a 2011. A política no Brasil é marcada por divisões; Lula voltou em 2023 após decisões judiciais que anularam suas condenações por corrupção.”
“O que realmente caracteriza a infração no Brasil não é o protecionismo, mas sim a sua autonomia”, afirma o Guardian.
Trump redefiniu essa autonomia do Brasil como uma forma de discriminação comercial injusta. É alarmante e previsível que o bolsonarismo aceite essa narrativa. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da BBC News



