Henrique Acker – Praticamente todas as seleções europeias que disputam a Copa do Mundo de 2026 estão recheadas de jogadores das ex-colônias africanas ou filhos de africanos que migraram para a Europa.
Soa como hipocrisia que os mesmos países que aplaudem craques negros e árabes que vestem camisas de seleções da Europa, aprovem uma legislação que promove o fechamento de fronteiras da União Europeia aos imigrantes.
O novo pacote de medidas sobre política migratória, aprovado em 18 de junho por 418 deputados do Parlamento Europeu contra 218 e 30 abstenções, restringe e endurece ainda mais as regras para o acolhimento e regularização de estrangeiros na União Europeia.
As novas regras incluem:
– Criação de “Centros de retorno”, locais e fora da União Europeia para os quais os migrantes considerados em situação irregular ou que tiverem pedido de asilo negado serão enviados;
– Aumento do prazo de detenção para quem aguarda repatriação passa de seis meses para dois anos. No caso de pessoas consideradas ameaças à segurança da UE, o prazo de detenção não tem limite;
– Suspensão de recursos dos imigrantes que entrem na Justiça para requerer a permanência no país, durante o processo contra a ordem de expulsão e deportação;
– Aumento do prazo exigido para retorno dos deportados aos países da União Europeia pelo período de dez anos. O prazo anterior era de cinco anos.
Alessandro Zan, do grupo social-democrata S&D, classificou a nova legislação como um capítulo sombrio. “Ela abre caminho para deportações forçadas, controles cada vez mais invasivos ao estilo do ICE da era Trump e para a normalização da detenção até mesmo de pessoas que não cometeram nenhum crime”, afirmou o parlamentar.
As novas regras autorizam as autoridades a revistar cidadãos de países terceiros, suas residências ou outros “locais relevantes”. Além disso, pertences pessoais poderão ser apreendidos, para garantir a expulsão de migrantes em situação irregular.
Seleções favoritas recheadas de imigrantes
Das 48 seleções que disputam a 23ª edição da Copa do Mundo, 40 têm jogadores naturalizados em seus elencos. São 289 “estrangeiros”, o que equivale a 23% de todos os atletas que disputam a competição. Ainda assim, alguns preferiram atuar pelas seleções de seus países de origem, mesmo trabalhando e vivendo na Europa.
Considerando os filhos de imigrantes nascidos na Europa, muitos são atletas de destaque em suas seleções. Algumas delas são favoritas a disputar a Copa de 2026, como França, Espanha, Inglaterra e Portugal.
Na França, tida como uma das favoritas, 61,5% do elenco é formado por jogadores com origem africana. Entre eles Kylian Mbappé (ascendência argelina e camaronesa) e Ousmane Dembélé (ascendência Mali e da Mauritânia).
Na Bélgica, o meio-campista Amadou Onana (nascido no Senegal) e o atacante Dodi Lukebakio (descendente de congoleses) são os principais exemplos. Outros destaques do elenco incluem Youri Tielemans, Jeremy Doku e Romelu Lukaku, todos com raízes na República Democrática do Congo.
Em Portugal, o atacante Rafael Leão possui ascendência angolana. Os laterais Nuno Mendes (origem angolana) e Nelson Semedo (origem cabo-verdiana) também são destaques da seleção
Na Alemanha, Jamal Musiala (ascendência nigeriana) e Antonio Rüdiger (ascendência de Serra Leoa) atuam como titulares da seleção principal.
A seleção da Inglaterra, que estreou goleando a Croácia por 4 a 2, contou com gols de Jude Bellingham (ascendência africana via Zimbábue) e Marcus Rashford (ascendência caribenha).
Os jogadores de maior destaque da seleção espanhola de origem africana na Copa do Mundo de 2026 são Lamine Yamal e Nico Williams. Ambos nasceram na Espanha e são filhos de imigrantes.
Outros grandes jogadores de origem africana são destaques nas seleções da Suíça (Breel Embolo, nascido em Camarões), Suécia (Alexander Isak, original da Eritréia) e Noruega (Antonio Nusa, filho de pai nigeriano e mãe norueguesa).
Copa da Diáspora
São tantos os jogadores naturalizados e descendentes diretos de estrangeiros nas seleções europeias, que alguns analistas consideram a atual competição disputada no México, EUA e Canadá a Copa da Diáspora.
O conceito de diáspora diz respeito à dispersão, deslocamento ou separação forçada de povos de seus respectivos territórios. Foi o que ocorreu com tribos inteiras na África, durante o período colonial, cujos membros eram vendidos como escravos e se espalharam por praticamente todos os continentes.
A chamada diáspora contemporânea trata de milhões de pessoas que fogem de guerras, conflitos regionais, fome e perseguições políticas em seus respectivos países.
A recente entrada em massa de africanos, latino-americanos e asiáticos na Europa e nos EUA é também resultado das desigualdades herdadas do sistema imposto pelos antigos Impérios europeus em suas colônias nos demais continentes. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



