Os imbecis empoderados  

Henrique Acker – A toda hora e em todo lugar é possível esbarrar com um deles. Gente de todo tipo, geralmente da chamada classe média, que se arvora a expor argumentos contra a “esquerdalha”. Mesmo que estejam pregando contra o jornalismo, os órgãos públicos, o STF, a ONU, ou reproduzindo bobagens pseudo-científicas.

Não se trata de uma turma letrada ou de muito estudo. São almas capturadas por uma nova forma de extremismo de direita, a partir do que se convencionou chamar de “narrativa”.

O diálogo com essas pessoas é quase impossível, porque elas têm convicções sobre tudo e qualquer coisa. Dia desses encontrei um que disse estar há 30 anos nos EUA. Encheu a boca para afirmar, com orgulho, que não acompanha mais o noticiário da mídia.

O mesmo sujeito tentou me dar lições de jornalismo (apesar de saber que eu era jornalista), alertando que o importante são as “fontes”. E saiu desancando todos os imigrantes brasileiros que vivem nos EUA. Segundo ele, estão lá “só para mamar”.

Percebe-se por esse e tantos outros depoimentos que os argumentos são toscos, convicções jamais baseadas em fatos concretos. Provavelmente obtidos a partir de filmes, cursos e séries da Brasil Paralelo, nome sugestivo dado a uma produtora neofascista que opera nas redes sociais.

O sujeito ainda disse que não acredita em fontes oficiais, quando eu argumentei que dados do governo português informam que 16% dos recursos da segurança social em Portugal provêm das contribuições de imigrantes, usadas para sustentar parte dos aposentados lusitanos.

Com os olhos brilhando e um sorriso no rosto, confidenciou que as coisas agora vão mudar nos EUA, porque o governo vai propor uma alteração à Constituição impedindo o reconhecimento da nacionalidade aos filhos de imigrantes nascidos em território estadunidense. “Eles vão todos se ferrar”, vibrou.

Mas há também parcela da sociedade que decidiu partir para o tudo ou nada. Lamentavelmente, trata-se de pessoas que acreditam estar defendendo seus direitos e a história de seus antepassados diante de possíveis “ameaças”. Uma espécie de vingança contra discriminações e preconceitos comuns no passado, ainda presentes, é verdade.

São os convertidos a um identitarismo de araque, que confundem a necessidade de reparações contra injustiças históricas e saem disparando impropérios, baseados em ressentimentos e numa visão rasa do mundo e das pessoas.

Outro dia mesmo, toquei nas costas de um rapaz negro e perguntei se ele poderia fazer um favor. Não é que o sujeito respondeu rispidamente que “não”, sem sequer ouvir o que eu pediria? E ainda lançou um “não toque mais em mim”.

Fiquei constrangido porque estava em um local público, próximo de outras pessoas que tudo viram e ouviram. Só me restou ironizar a reação do “ofendido” e responder: “Desculpe, excelência. Eu não sabia que se tratava de alguém tão importante”. Como não queria confusão, dei as costas e me afastei. Mas ainda tive que ouvir o rapaz falar em Lei Áurea.

Noutra ocasião, dias depois, estava numa fila para comprar ingresso no teatro e um amigo que foi comigo se encantou com um bebê num carrinho, logo atrás de nós. Prontamente foi advertido pela mãe: “Não toque mais nele!”

Meu colega, de cabelo branco, tratou de tranquilizar a senhora e justificou: “Sabe o que é? Eu sou de uma outra geração”, retrucou em voz mansa. Um senhor que estava atrás da mãe do bebê – talvez um familiar – ficou nitidamente constrangido com a situação.

Lembrei que, recentemente, li um artigo sobre as divisões na sociedade estadunidense. Parece que estamos caminhando para algo semelhante. Somemos a isso a conversão de milhões de brasileiros a um Evangelho sem Jesus Cristo, que promete prosperidade em vez de pregar a solidariedade humana, como ensinava o Filho de Deus.

Parece que parcela da classe média brasileira, um tanto ignorante, mas que se imagina sabida, descobriu na extrema-direita bolsonarista as respostas para todas as suas angústias preconceituosas. É alimentada diariamente, via redes sociais, com sandices que só atiçam as frustrações e o mau-caratismo dos escroques.

Já os identitários, frequentemente confundidos com a “esquerda”, agem com desconfiança. Parecem estar o tempo todo vigilantes, prontos a advertir os “inimigos”, inclusive os que poderiam ser seus aliados, não fosse a estupidez e o sectarismo dessa receita segregacionista.

Há quem ainda se ache no direito de condenar Monteiro Lobato e outros tantos intelectuais por terem reproduzido em suas obras do passado um linguajar que, à sua época, era comum.

Enfim, vivemos uma guerra dos imbecis empoderados contra a ciência. A luta de classes sumiu ou foi abafada pelo barulho das turmas da “narrativa” e dos “identitários”. Nós, os simples mortais que nada sabemos e de tudo somos acusados, que tratemos de nos cuidar.  (Foto: Internet / Reprodução)

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

Relacionados

plugins premium WordPress