Henrique Acker – “Volto para o Brasil mais otimista. O Brasil está disposto a construir parcerias, não tem veto aos EUA, assim como não tem veto à China, Índia, França, Alemanha ou a qualquer outro país”. Foi nesse clima que o presidente Lula se despediu na coletiva de imprensa após a reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump.
“Saio daqui com a ideia de que demos um passo importante na consolidação da relação histórica com os EUA. É uma demonstração de que as duas maiores democracias do continente podem servir de exemplo para o mundo”, disse Lula.
Os ministros das diversas pastas que participaram da reunião com a equipe de Trump também resumiram o encontro como positivo em suas respectivas áreas.
Crime organizado x “terrorismo”
Lula afirmou que muitas vezes os EUA trataram desse assunto como uma justificativa para ter bases militares na América Latina. “Na verdade, é preciso incentivar a produção de outras coisas, que sejam consumidas por outros países”, como uma forma de evitar a produção de drogas.
Aproveitou para informar que, a partir da semana que vem, seu governo deve lançar um plano para o combate ao crime organizado. “Precisamos destruir o potencial financeiro desses grupos. Muitos deles viraram verdadeiros empreendimentos empresariais”.
O presidente afirmou que o governo brasileiro está disposto a construir um Grupo de Trabalho com todos os países da América Latina para combater o crime organizado. Inclusive aberto à participação de outros países. Lula lembrou que armas americanas contrabandeadas chegam ao Brasil e que dinheiro sujo obtido ilegalmente no Brasil também é lavado nos EUA.
Terras raras e minerais críticos
O presidente deixou claro que seu governo aceita tratar desse assunto em parceria com outros países, sem exclusividade. “Tudo que se fala é sobre China. Queremos é fazer parceria, sem preferências. Desde que com regras que assegurem a soberania do Brasil. Fazer a mineração, a separação e produzir. Está na lei aprovada na Câmara e que foi para o Senado”.
Lula advertiu que seu governo não pretende repetir o modelo exportador adotado até aqui. “O que nós não queremos é ser meros exportadores. Não queremos repetir o que aconteceu com a prata, o ouro, o minério de ferro. Com as terras raras, nós vamos mudar de comportamento”.
Comércio e tarifas
Nesse ponto, Lula admitiu que existem divergências entre os dois governos. “Eles dizem que cobramos muitos impostos sobre os produtos dos EUA. Nós cobramos apenas 2,7% na média. Eles afirmam que muitos produtos cobram mais.”
Ainda assim, apontou uma saída acordada na reunião para que se encontre uma solução. “Em 30 dias vamos fazer um encontro entre os nossos ministros dessa área. Quem estiver certo ganha e quem estiver errado cede.”
Sobre investimentos na economia brasileira, o presidente reafirmou que seu governo tem interesse que os EUA e outros países apostem no Brasil. Citando a polêmica do custo para a instalação de centros de dados, Lula foi taxativo: “Nós não vamos gastar dinheiro com energia para alimentar data-centers para enviar dados para outro país”.
Questionado sobre possíveis vetos à importação de produtos de lado a lado, Lula respondeu: “A única coisa que nós não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania”.
Sobre o uso do Pix como sistema de transações pelo Brasil, Lula disse que o tema não foi abordado. “Trump não tocou no assunto e eu também não toquei. Espero que um dia ele faça um Pix, porque muitas empresas norte-americanas já fazem”, ironizou.
Guerras e bloqueio a Cuba
O presidente brasileiro lembrou que, em 2010, Brasil e Turquia fizeram uma proposta e conseguiram convencer o Irã a assinar um acordo de não produção de armas nucleares. No entanto, segundo Lula, mesmo com o acordo, o presidente Obama e a União Europeia decidiram aumentar as sanções ao Irã.
“Eu entreguei cópia desse acordo ao Trump. É preciso que os países que tenham armas nucleares tomem a iniciativa de irem desativando seu arsenal. Deveriam dar o exemplo, mas não fazem”, disse Lula.
O presidente disse a Trump que também está à disposição para ajudar a discutir a situação de Cuba. “Até porque Cuba quer dialogar para colocar fim ao bloqueio econômico. Ele (Trump) disse que não pensa em invadir Cuba.”
Na coletiva de imprensa, o presidente brasileiro defendeu a paz, criticou as guerras, citando as intervenções militares na Ucrânia, Gaza, Irã e Líbano, insistindo na necessidade de mudanças no Conselho de Segurança da ONU.
“Todo mundo sabe como começa uma guerra, como termina ninguém sabe. Dialogar é muito mais barato, não tem vítimas, morte de crianças, destruição de escolas”, alertou Lula.
Eleições no Brasil
Sobre uma tentativa de interferência do governo Trump nas próximas eleições presidenciais brasileiras, Lula descartou essa possibilidade. “Não acredito que ele vá ter qualquer influência nas eleições brasileiras, até porque quem vota e decide é o povo brasileiro.”
Lula disse que o encontro foi basicamente para tratar de interesses entre os dois países, mas que entregou todas as propostas do governo brasileiro escritas em inglês nas mãos do presidente Trump. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



