Raimundo Pereira, o jornalista que liderou resistência democrática

Faleceu na manhã deste sábado (2/5) o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, aos 85 anos, no Rio de Janeiro. O corpo será cremado ainda hoje. Não foram revelados detalhes sobre a causa da morte.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) declarou que o jornalista “deixa um legado que inspira muitos profissionais da área“. “Raimundo Rodrigues Pereira deixa um trabalho que vai além de suas contribuições pessoais. Sua jornada é parte integral da história da luta pela democracia no Brasil”, afirma a declaração.

Oriundo de Exu, Pernambuco, Raimundo Pereira destacou-se como um dos principais jornalistas na luta pela resistência democrática durante o período da ditadura militar. Apesar de nunca ter sido associado a nenhum partido ou movimento de esquerda, sempre foi visto como parte desse espectro ideológico.

Iniciou sua trajetória profissional na década de 1960, atuando na revista Realidade e, em seguida, no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1964, foi expulso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, onde cursava engenharia, e acabou sendo preso. Essa repressão foi motivada pelos artigos que escreveu para o jornal O Suplemento, elaborado por alunos do ITA. Inicialmente, Pereira foi detido no DOPS de São Paulo, onde permaneceu por uma semana, e, posteriormente, foi transferido para a Base Aérea do Guarujá, onde ficou preso por mais dois meses, conforme relata a biografia publicada pelo Memorial da Resistência, de São Paulo.

Na década de 1970, atuou na imprensa alternativa, que se colocava contra a ditadura, embora não promovesse um confronto direto e armado. Em 1972, iniciou sua carreira no periódico Opinião e, em 1975, estabeleceu a revista Movimento.

A publicão Movimento era como Pereira denominava um “jornal sem donos“. A administração da revista era completamente conduzida por jornalistas, sem a presença de empresários na liderança. A publicação ganhou notoriedade devido à sua cobertura das greves no ABC Paulista em 1979, comandadas pelo então líder sindical Lula, e pelas matérias sobre movimentos sociais e dificuldades urbanas em São Paulo.

A revista também estabeleceu Pereira como uma das figuras mais proeminentes da mídia brasileira na resistência à ditadura. Essa publicação destacou-se como uma das principais responsáveis por expor os abusos do regime e “na elaboração de uma narrativa crítica em prol da democracia”, como afirma a ABI.

Através da revista, Raimundo Pereira argumentou a favor de uma anistia que fosse ampla, geral e sem restrições para todos os que se opuseram ao regime militar, incluindo aqueles acusados de terrorismo e os que estiveram envolvidos na luta armada. Ao final, saiu parcialmente em desvantagem, pois a anistia sancionada em 1979 também absolveu os crimes perpetrados pelos militares durante seu domínio sobre o Estado.

Após a dissolução do regime, começou a apoiar a realização de uma assembleia constituinte “livre e soberana”, composta por indivíduos escolhidos unicamente para criar uma nova constituição, contrastando com aqueles que acreditavam que o Congresso deveria desempenhar simultaneamente suas funções parlamentares e as de uma assembleia constituinte.

A ideia de uma constituinte “livre e soberana” era uma bandeira defendida pela esquerda da época, liderada pelo PT. No entanto, em 1987, foi convocada a Assembleia Constituinte formada pelos deputados e senadores eleitos nas eleições diretas do ano anterior, em linha com as propostas das lideranças empresariais e dos partidos conservadores.

Com a instaurada democracia, em 1988, Raimundo Pereira fundou o periódico Retratos do Brasil. A proposta era compilar reportagens detalhadas e estudos aprofundados acerca das questões mais relevantes do país.

Recentemente, Pereira começou a trabalhar na Editora Manifesto. Através dessa editora, lançou obras que abordam importantes escândalos políticos daquele período, como “Operação Satiagraha, o Mensalão e o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT)”. Em suas publicações, ele oferecia uma perspectiva distinta e crítica em relação ao que era veiculado pelos principais meios de comunicação do país. (Foto: Reprodução) 

Por Opinião em Pauta com agências de notícias

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