O Pará sem água: entre a torneira seca e o abuso, o povo exige respostas

Opinião em Pauta –  O Pará, terra das águas abundantes e dos rios que banham a identidade de um povo, vive uma ironia cruel e inaceitável. O que deveria ser um serviço básico e essencial transformou-se em um pesadelo cotidiano: o descaso da concessionária Águas do Pará. O cenário é de revolta generalizada em quase todos os municípios do estado, onde a promessa de eficiência deu lugar a torneiras secas, água de coloração duvidosa e boletos com valores que beiram o confisco.

 

O colapso do abastecimento e o silêncio do Estado

Não se trata de um problema isolado, mas de um sistema em frangalhos. Relatos de falta d’água constante tornaram-se o novo “normal” para o paraense. Quando a água finalmente chega, muitas vezes traz consigo uma tonalidade barrenta ou imprópria para o consumo, expondo a população a riscos sanitários graves.

Diante desse caos, a pergunta que ecoa de Belém ao extremo sul do estado é uma só: onde está o Governo do Estado? Ao efetuar a concessão ou venda dos serviços, o Executivo estadual não se exime da responsabilidade fiscalizadora. O silêncio das autoridades diante das cobranças abusivas e da má prestação do serviço soa como conivência, deixando o cidadão à mercê de uma lógica de lucro que ignora o direito humano à água.

 

 

Altamira:  Câmara reage ao descaso

A paciência esgotou. Em Altamira, a reação política tomou forma concreta: a Câmara de Vereadores aprovou recentemente a intervenção no contrato com a concessionária. A medida reflete o anseio de uma população que não aceita mais pagar por um serviço que não recebe. A intervenção é um sinal claro de que as vias institucionais estão sendo acionadas para frear o que muitos consideram uma exploração desenfreada.

 

Bonito: Contratos sob a sombra da ilegalidade

Em Bonito, o problema ganha contornos de escândalo jurídico. A vereadora Silvia Assad trouxe a público uma denúncia grave contra o prefeito Alex Souza da Silva (MDB). Segundo a parlamentar, o contrato com a Águas do Pará teria sido assinado sem a devida aprovação da Câmara Municipal — um rito obrigatório que, se ignorado, torna o ato ilegal.

A denúncia de Assad aponta para um “casamento” forçado entre o município e a concessionária, feito às costas do povo e de seus representantes legais. Enquanto o jogo político se desenrola nos bastidores, o morador de Bonito sofre com a descontinuidade do abastecimento, repetindo o drama vivido em quase todos os cantos do Pará.

 

 

Hora da prestação de contas

A revolta popular está migrando das redes sociais para ações diretas. O paraense, historicamente resiliente, chegou ao seu limite. A concessionária Águas do Pará precisa entender que o fornecimento de água não é um privilégio, mas um direito.

É urgente que o Ministério Público e o Governo do Estado saiam da inércia. Não basta vender o serviço; é preciso garantir que ele funcione. Enquanto a solução não vem, o povo continua a pagar a conta — literalmente — de uma gestão que parece ter esquecido que, sem água e sem transparência, não há dignidade. (Foto: Reprodução)

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