Belém (Opinião em Pauta) – que deveria ser a promessa de eficiência e modernização do saneamento básico no Pará transformou-se em um pesadelo cotidiano para milhares de famílias. Desde que a estatal Cosanpa cedeu espaço para modelos de concessão privada, o “ouro azul” tornou-se artigo de luxo em diversas regiões do estado. O caso mais emblemático e recente vem de São João de Pirabas, onde a prefeita Kamily Araújo (MDB) precisou tomar uma medida drástica: decretar situação de emergência e anunciar a retomada do serviço pela municipalidade diante da incompetência da concessionária Águas do Pará.
São João de Pirabas: O Ponto de Ruptura
A indignação estampada no vídeo da prefeita Kamily Araújo não é apenas política; é o reflexo de uma crise humanitária. Com interrupções prolongadas e uma gritante ausência de manutenção, a empresa Águas do Pará demonstrou total incapacidade de gerir o sistema.
“Tinha esperança que ia melhorar, mas estamos padecendo”, afirmou a gestora ao anunciar que o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) reassumirá o controle.
O decreto de emergência é o último recurso de uma cidade que viu o serviço essencial colapsar sob o lucro privado, provando que a desestatização, quando feita sem rigor e fiscalização, entrega apenas escassez.
O Efeito Dominó
O problema, contudo, não é isolado. A mancha da ineficiência se espalha pelo mapa paraense.
Citando apenas alguns municípios, Altamira também prova da incapacidade da concessionária tocar os serviços. Denúncias do ex-deputado federal Zé Geraldo indicam que a cidade enfrentou dias consecutivos de torneiras secas, evidenciando que nem mesmo grandes centros urbanos estão salvos do descaso.
Exemplo disto é o que ocorreu em Marabá, quarto município de importância socioeconômica e político: a cidade amargou cerca de uma semana sem abastecimento regular, gerando prejuízos econômicos e riscos à saúde pública.
A transição da Cosanpa para a concessionária privada foi vendida sob o pretexto de investimentos vultosos que a máquina pública não poderia suportar. No entanto, o que se observa na prática é uma exploração predatória. As falhas operacionais recorrentes sugerem que a empresa prioriza o corte de custos operacionais em detrimento da manutenção básica das redes e reservatórios.
Paraense perdeu a paz
O cenário é de retrocesso.
Se antes a Cosanpa enfrentava críticas por limitações técnicas, a gestão privada atual parece ter introduzido uma instabilidade sistêmica. O paraense, que vive em uma das regiões com a maior reserva hídrica do planeta, ironicamente, não tem segurança de que terá água para as necessidades básicas ao acordar.
A situação de São João de Pirabas pode ser o início de um movimento de “remunicipalização” ou de rescisões contratuais em massa. O Governo do Estado e as agências reguladoras não podem mais ignorar o grito de revolta que vem do interior: o saneamento não pode ser tratado apenas como balanço financeiro; é dignidade humana, e o Pará está com sede de soluções reais.



