Henrique Acker – O mapa do Irã lembra a imagem de um castelo cercado de muros altos por todos os lados, com planícies desérticas em seu interior. As montanhas Zagros, que cobrem toda a costa oeste do Irã, formam uma barreira natural com picos de até 4.500 metros de altitude. Isso dificulta a possibilidade de um ataque militar dos EUA com infantaria no terreno.
Na guerra com o Iraque (1980-1988), numa fronteira de 1.500 km que divide os dois países, o regime iraniano soube explorar a vantagem de defesa natural que o território oferece. O conflito encerrou sem que nenhum soldado inimigo conseguisse colocar os pés no Irã, apesar da superioridade em armamentos e à ofensiva do exército iraquiano.
Ormuz e petróleo iraniano
Há semanas, o comando militar dos EUA estuda uma forma de atacar por terra e fragilizar o regime iraniano. O lançamento de paraquedistas sobre o país levaria a muitas baixas para o exército invasor.
Uma das alternativas seria concentrar a invasão à costa oeste do país, com o objetivo de acabar com o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, área de navegação estratégica de navios petroleiros pelo Golfo Pérsico.
Já há cerca de cinco mil fuzileiros navais estadunidenses concentrados na região do Golfo. Outros dez mil podem ser enviados para essa missão. O Irã conta atualmente com cerca de 400 mil soldados de suas forças armadas regulares e cerca de 200 mil homens da Guarda Revolucionária.
Um dos alvos seria a ilha de Kharg, pela qual passam 90% do petróleo bruto exportado pelo Irã. Kharg tem capacidade para carregar até 10 superpetroleiros simultaneamente e conta com grandes complexos de infraestrutura energética. A ilha possui capacidade para armazenar cerca de 18 milhões de barris de petróleo.
Por isso mesmo, de acordo com especialistas consultados pela rede britânica de comunicação BBC, um ataque a Kharg poderia causar um aumento violento no preço do barril de petróleo mundial, que atingiria cerca de US$ 150.
Rejeição e perigos
O principal impacto que uma invasão com tropas em território iraniano pode causar a Donald Trump é político. Cerca de 60% da população dos EUA rejeita a guerra, contra cerca de 27% que apoia, de acordo com pesquisas da CNN e da Agência Reuters de Notícias.
Um levantamento de opinião da Associated Press e do instituto de pesquisa da Universidade de Ohio constatou que 62% dos entrevistados se opõem fortemente ao uso de tropas terrestres no Irã, com apenas 12% sendo favoráveis.
Analistas políticos e militares consideram que a invasão do Irã, além de levar a um conflito de muito maior duração, pode gerar um número de baixas muito elevado entre soldados estadunidenses, além de um enorme gasto militar.

Interesses geopolíticos
Há os que sustentam que a guerra contra o Irã é de maior interesse da cúpula do governo de extrema-direita de Israel, visando a sobrevivência política de seu primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, principal aliado de Trump no Oriente Médio.
No entanto, dominar a produção e a exportação de petróleo do Irã é parte da estratégia geopolítica de Donald Trump. Seria um duro golpe contra a China, que depende em parte do petróleo que importa do Irã.
Os ataques israelenses ao Líbano e o recente anúncio de ocupação do sul daquele país por Israel, além da ofensiva contra a população palestina na Cisjordânia, apontam para o avanço do plano do chamado “Grande Israel”, projeto de expansão territorial defendido por Netanyahu.
Desafios para Trump e Netanyahu
Tanto Trump quanto Netanyahu enfrentarão desafios políticos ainda este ano. Nos Estados Unidos, haverá eleição para renovar a Câmara e o Senado em novembro. Em Israel, a coalizão de direita que sustenta Netanyahu também terá que passar pelo crivo das urnas em outubro.
A taxa de aprovação de Trump, que tem permanecido abaixo dos 40% desde o ano passado, está em 36%, com 63% de rejeição. Quase metade dos entrevistados desaprova fortemente o desempenho de seu trabalho, enquanto 19% aprovam. Os números são da pesquisa CNN/SSRS, realizada em fevereiro.
Em Israel, apesar das sondagens indicarem que 90% da população apoia a guerra contra o Irã, a popularidade de Netanyahu permanece baixa. Pesquisas de março deste ano indicam que a coalizão governista, a mais à direita da história, conquistaria 51 cadeiras no Parlamento, com a oposição chegando a 59. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de InfoMoney, BBC, CNN Brasil, G1, Carta Capital, Reuters, Agência Brasil, Wikipedia, DW.



