Coisas da Política – João Salame

REVIRAVOLTA

Na manhã do domingo, o prefeito Daniel Santos recebeu um telefonema do vice-presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira. Com a educação que lhe é peculiar ressaltou os laços de amizade que construiu com o prefeito e aconselhou que ele retirasse seu time do PSB, porque “as pressões vindas dos altos escalões se tornariam cada vez mais difíceis de serem suportadas” pela cúpula do partido. Era a crônica de uma morte anunciada, como diria o saudoso escritor Gabriel Garcia Marques.

 

INDIGNADO

Ainda no domingo, o vice-presidente Geraldo Alckmin telefonou para Daniel Santos e expressou sua indignação e total insatisfação com a decisão tomada pela cúpula do PSB. Alckmin se considerou “atropelado”, sobretudo pela relação de amizade que construiu com o prefeito de Ananindeua. Não se sabe se essa insatisfação trará alguma consequência. No jogo bruto que se tornou a movimentação partidária, o mais provável é que não passe de um protesto.

 

SIMPLISMO

As pessoas, quando são afetadas negativamente por alguma decisão, procuram arrumar logo um culpado. “Foi o Daniel, foi o João Campos, foi o João Salame”, enfim. Na realidade, uma decisão complexa como essa é motivada por vários fatores, como foi, inclusive, a retirada do partido das mãos de Cássio Andrade e sua entrega ao prefeito Daniel Santos. De lá para cá muita coisa aconteceu. É o que vamos procurar entender ao longo dessa Coluna, integralmente dedicada a este episódio que terá importantes consequências no processo eleitoral que se avizinha.

 

ESTRATÉGIA

Logo que saiu do MDB, Daniel Santos cunhou uma estratégia, que poderia ser resumida num slogan: “Não vencemos sem a direita, mas não é bom ir pra direita”. A ideia era a formação de uma frente ampla, capaz de enfrentar o poderio da máquina comandada por Helder Barbalho, unindo o centro, que Daniel representa, a direita e setores progressistas. Aliás, o próprio HB havia vencido as eleições de 2018 com o apoio do PT, de Eder Mauro e o PSL de Jair Bolsonaro e a simpatia do PSol de Edmilson Rodrigues, além do apoio de outros setores de direita e moderados.

 

ESCOLHA

Diante dessa estratégia, Daniel Santos saiu do MDB e, mesmo sendo um político de centro, foi se abrigar no PSB, à época comandado por Carlos Siqueira. O fato do partido não ter eleito um deputado federal e ter se transformado num “puxadinho” do MDB sensibilizou a cúpula nacional a entregar a legenda ao prefeito de Ananindeua, que apresentou um projeto audacioso, mostrando a possibilidade real do PSB ter um governador e uma bancada de 3 deputados federais. As tratativas avançaram e se consolidaram.

 

AMIZADE

Já no PSB, Daniel consolidou uma grande amizade com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, expoente do partido. Esse relacionamento lhe rendeu sabores e dissabores. Ampliou sua influência nos círculos mais poderosos de Brasília mas, ao mesmo tempo, começou a receber ataques no front interno de setores bolsonaristas, por óbvio insatisfeitos com essa aproximação.

 

 

MUDANÇA

No plano local, uma mudança no comando partidário do PL começou a dar novos rumos a aliança projetada por Daniel. O deputado Éder Mauro (foto) cedeu a presidência ao também deputado Joaquim Passarinho. Enquanto Éder aceitou a presença de Daniel no PSB, por entender que o mais importante era derrotar o projeto comandado por Helder Barbalho, tanto que foi à Convenção que consagrou o prefeito de Ananindeua candidato a reeleição, já pelo PSB, além de ter impedido a candidatura do deputado Coronel Neil pelo PL naquele município (o que interessava a HB), Passarinho assumiu dando novo rumo ao partido.

 

ULTIMATO

Sob o comando de Passarinho e incentivado pelo bom resultado nas pesquisas da candidatura de Flávio Bolsonaro, o PL engrossou a voz e passou a exigir que Daniel Santos deixasse o PSB, sob pena de não receber o apoio da legenda bolsonarista. No plano interno, o marketing da campanha alertava que o tempo de TV do PSB era pequeno e, sem o PL, a campanha televisiva seria um massacre de Hana contra Daniel. A disposição de Mário Couto de apresentar sua candidatura a governador pelo PL e os bons índices de uma possível candidatura de Eder Mauro ao Governo também pressionavam o projeto comandado por Daniel Santos.

 

SOCIALISTAS

O PSB também passava por mudanças. O cordato Carlos Siqueira deixava a presidência do partido para o audacioso e ambicioso jovem João Campos, com um projeto claro de se eleger governador de Pernambuco para, depois, pensar na disputa pela presidência da República. Campos disparou nas pesquisas para o governo do Estado e Daniel já estava filiado ao partido. Com o passar dos meses, a governadora Raquel Lyra (PSD) reagiu e passou a ameaçar o projeto de Campos. O sinal de alerta foi ligado no PSB. O partido passou a ter duas prioridades absolutas: a eleição de Campos e manter Alckmin na chapa de Lula como vice, ameaçado por uma possível aliança do PT com o MDB.

 

DIFICULDADE

No Pará, pressionado pelas condições do PL, que além de exigir a saída de Daniel do PSB também solicitou uma vaga ao Senado e a de vice na chapa, Santos se viu diante do dilema sobre a outra vaga à Câmara Alta. O senador Zequinha Marinho (Podemos) deseja concorrer à reeleição. Celso Sabino (foto) quer se unir a oposição e também concorrer a esta vaga. Mesmo não sendo um político de esquerda, Sabino criou vínculos com o presidente Lula e sua candidatura na chapa de Daniel possibilitaria a ideia de frente ampla. Imbróglio de difícil solução.

 

 

PODEMOS

Diante das exigências e entendendo como importante o tempo de televisão, que o PL não lance candidatura ao governo e pensando em resolver a eleição no primeiro turno, Daniel decidiu sair do PSB e se filiar ao Podemos, ao mesmo tempo em que mantinha o PSB em sua coligação, colocando sua esposa, a deputada mais votada do Pará, para encabeçar a chapa do partido. Chegou a combinar com os russos, mas a poderosa máquina dos interesses políticos falou mais alto.

 

CENÁRIO

Em Pernambuco, acossado pelo crescimento nas pesquisas da governadora Raquel Lyra, João Campos viu sua candidatura se tornar ainda mais dependente do apoio do presidente Lula, que é muito forte no Estado. Passou a precisar fortemente do PT e do MDB no Estado. No plano nacional, a candidatura de Alckmin a vice também passou a depender da desistência do MDB em indicar o cargo e da vontade de Lula. Consta que o “problema” do Pará chegou ao quarto andar do Palácio do Planalto. O MDB, a exemplo do que o PL fez localmente, apresentou suas exigências. O martelo foi batido.

 

CHAPA

No Pará, Daniel Santos consolidou sua chapa com Podemos e PL, adversários de morte do governo. O cenário para a tempestade perfeita estava criado. Era uma questão de tempo. O PSB tinha escapado às mãos e voltaria ser um puxadinho do MDB no Estado. Daniel Santos perdia a legenda que lhe ajudava a trazer o apoio de setores progressistas. Usando a força da máquina e de interesses partidários, HB continua apostando forte na sua estratégia de inviabilizar, no “tapetão”, a candidatura de seu principal adversário.

 

DILEMAS

Falta uma semana para o fechamento da janela partidária e de filiações. Até lá Daniel Santos terá alguns desafios pela frente. Aceitará a estratégia já definida pelos partidos de direita? Será suficiente para garantir sua vitória já no primeiro turno ou atende principalmente aos interesses desses partidos? Conseguirá reeditar sua ideia inicial de frente ampla atraindo algum partido progressista ou mesmo a adesão do deputado Celso Sabino ou vai apenas com os partidos de direita? O tempo é curto. Mas como diz a célebre frase: “política é como nuvem. Você olha pra cima e está de um jeito. Você abaixa a cabeça e quando olha pra cima já está tudo mudado”. A conferir.

 

POPULAR

Para a sorte dos setores que fazem oposição em qualquer lugar do País, as manobras partidárias, conchavos, rasteiras, cumprem um papel importante, mas, em última instância, quem decide é a soberania popular. Quando o povo quer, quando o sentimento de mudança toma conta da sociedade, não tem artimanha e golpe que consigam impedir a vitória de um projeto. Entre acertos e erros de sua estratégia, é nisso que Daniel Santos aposta. Na vontade popular, acima de tudo.

 

MÁGICO

Governador Helder Barbalho tem agora um dilema em suas mãos. Quer fortalecer o MDB e chegar com uma grande bancada, novamente, em Brasília. Mas para impedir que Daniel Santos ou Celso Sabino assumissem o comando do Republicanos, PSDB, União Brasil e PDT prometeu que montaria chapa forte de candidatos a deputado federal nesses partidos. Agora tem mais o PSB. Alguém vai ser enganado. A conferir.

 

FRASE

Napoleão Bonaparte (Imperador francês): “Quem teme ser vencido tem a certeza da derrota”

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