A desvalorização do dólar indica que a análise de que sua alta se devia a fatores fiscais estava equivocada.
A analista econômica do jornal O Globo, Míriam Leitão, aponta em um artigo divulgado nesta quarta-feira, 6, que compreender as oscilações do dólar se torna um desafio após doze dias seguidos de declínio, o que culminou em uma apreciação de 6,6% da moeda brasileira.
A jornalista informa que, nesta quarta-feira, a moeda americana teve uma valorização, iniciando o dia cotada a R$ 5,75, chegou a ser transacionada por um pouco mais de R$ 5,80 e, ao final da manhã, estava sendo negociada a R$ 5,79.
Miriam relata que teve uma conversa com um especialista em economia sobre o mercado de câmbio, e ele comentou que o dólar está com uma tendência “sutil” de aumento e que é complicado ver uma queda. Qualquer alteração, instabilidade ou notícia inesperada provoca uma alta na moeda. Embora o dólar permaneça bastante volátil, sua cotação está em torno de R$ 5,80, enquanto em 18 de dezembro chegou a ser negociado a R$ 6,28.
Ao longo de duas décadas, diz Leitão, o Brasil registrou um déficit de US$ 50 bilhões em suas relações comerciais com os Estados Unidos, ao passo que obteve um superávit superior a US$ 300 bilhões com a China. Entenda por que, apesar disso, o país pode ser criticado por Trump.
No final do ano, ocorreu uma movimentação de retirada de dólares do Brasil, o que contribuiu para o aumento da taxa de câmbio. No entanto, essa valorização do dólar não se restringiu apenas ao Brasil, mas foi uma tendência global, especialmente antes da cerimônia de inauguração de Donald Trump. A expectativa de uma política protecionista, que se acredita que causará um aumento da inflação nos Estados Unidos e, por sua vez, taxas de juros mais elevadas, fez com que a moeda dos EUA se fortalecesse em nível mundial.
Na avliação da especialista em economia, quando se discute o dólar, nem sempre os movimentos são simples e automáticos; diversas variáveis influenciam a taxa de câmbio. No Brasil, a flutuação da moeda americana foi interpretada como um reflexo de um suposto iminente colapso fiscal. É inegável que a preocupação fiscal está presente, uma vez que a dívida do país atinge 80,1% do PIB, sendo uma dívida onerosa. Portanto, a questão fiscal deve estar sempre em pauta para quem estuda a economia brasileira. No entanto, as afirmações feitas no final de 2024 ultrapassaram a realidade do que realmente se passava no Brasil.
Em conclusão, o governo atingiu a meta de déficit estipulada. É verdade que algumas despesas foram excluídas desse cálculo, uma delas com justificativa: os gastos relacionados ao enfrentamento da calamidade no Rio Grande do Sul. Os investimentos realizados devido às chuvas extraordinárias na região, considerados uma emergência climática, corresponderam a 0,5% do PIB. Se a meta foi alcançada e a exceção foi aplicada de maneira adequada, isso indica que a deterioração fiscal não era tão significativa quanto o mercado havia insinuado para justificar a alta do dólar. Um indicativo disso é que a situação fiscal permaneceu estável, e o movimento da moeda norte-americana começou a se inverter no início deste ano.
As variações do dólar impactam a inflação, que tem permanecido acima do limite estabelecido nos últimos meses, gerando apreensão geral. A desvalorização da moeda dos Estados Unidos diminui a pressão sobre os preços, incluindo os dos alimentos.
Além disso, espera-se uma colheita favorável, o que também pode contribuir para baixar a inflação dos alimentos. Embora não haja uma redução como ocorreu em 2023, haverá uma diminuição na inflação em comparação com 2024. Ademais, outro fator que pode influenciar os índices inflacionários é a desaceleração econômica.
Diversos sinais, incluindo as estatísticas de emprego do Caged, já evidenciam os impactos da política monetária restritiva do Banco Central. Segundo dados divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE, a produção industrial diminuiu 0,3% em dezembro, após uma queda de 0,7% em novembro.
No decorrer do ano, o desempenho do setor foi excelente, com um aumento de 3% na produção industrial. Contudo, o último trimestre apresentou resultados negativos, sinalizando um panorama de desaceleração econômica para o ano atual, em decorrência do aumento das taxas de juros implementado pelo Banco Central. Por último, discutir sobre o dólar é abordar a situação econômica vigente. (Foto: Reuters)