Henrique Acker – Duas mensagens saíram das urnas no segundo turno da eleição presidencial em Portugal: um candidato moderado foi capaz de derrotar o apelo neofascista; mesmo derrotado, André Ventura se credencia para levar seu partido à vitória na próxima eleição parlamentar.
O regime político em Portugal não concede ao Presidente muitas prerrogativas. Além da representação protocolar do país, o Presidente pode dissolver o parlamento e convocar novas eleições. Quem governa é o primeiro-ministro, quase sempre do partido com maior bancada de deputados na Assembleia da República ou de uma coligação que permita formar maioria.
Seguro morreu de velho
Os números não mentem. A maioria dos eleitores de esquerda, centro esquerda e conservadores se uniu para eleger o empresário António José Seguro e impedir a ascensão do líder da extrema-direita à Presidência. Apesar de identificado com o PS, Seguro é apenas um moderado.
A candidatura de Seguro mais que dobrou sua votação do primeiro turno, saindo de 31% para 67% no segundo. Já Ventura conseguiu ampliar seu eleitorado em cerca de 12%, alcançando 33% contra os 21% que obteve no primeiro turno. A abstenção até foi pequena (41%), contra os cerca de 60% na eleição presidencial passada.
Isso quer dizer que parte do eleitorado da direita tradicional, identificado com a Iniciativa Liberal (IL) – uma espécie de Novo de Portugal – e o Partido Social Democrata (PSD), decidiu apostar no discurso ultra-reacionário do Chega e seu líder.
No centro do debate eleitoral esteve sempre o preconceito contra os ciganos e imigrantes, bodes expiatórios preferidos da extrema-direita na Europa e também em Portugal.
Preconceito é carro-chefe
O Chega é um partido sustentado por um grupo de empresários, alguns dos quais têm interesse em preservar a mão-de-obra imigrante. Eles não gostam de aparecer, mas já foram flagrados em grandes almoços de arrecadação e confraternização com Ventura. São atraídos pela proposta de menos impostos e mais liberdade para os seus negócios.
Esse apoio ao Chega também tem a ver com um cálculo simplório. Quanto maior a pressão sobre os imigrantes, menos valorizado será o custo de sua mão-de-obra, que se sujeita a serviços penosos por menores salários. Muitos se submetem a condições desumanas de sobrevivência, em alojamentos precários.
Como em toda a Europa, os imigrantes em Portugal são contratados preferencialmente como terceirizados em fábricas, estão nas colheitas de uva e azeitonas, na construção civil, nos bares e restaurantes, no serviço de UBER, como cuidadores de idosos, etc.
Apesar disso, os dados da Segurança Social portuguesa – equivalente à nossa Previdência Social – mostram que os imigrantes são determinantes para a arrecadação e pagamento das aposentadorias e pensões dos portugueses. Ao mesmo tempo, consomem muito menos serviços e despesas do governo português.
Contraditoriamente, boa parte dos brasileiros residentes em Portugal formam parte do eleitorado do partido que discrimina imigrantes. Da mesma forma, os cidadãos portugueses no Brasil votaram em sua maioria em André Ventura, que obteve 4269 votos (58,73%) contra 3000 (41,27%) de Seguro.
Preparando terreno para governar
Atualmente, o Chega conta com 60 cadeiras, formando a segunda maior bancada, atrás do PSD (88) e a frente do PS (58). Se Ventura mantiver a simpatia da parte do eleitorado que aderiu à sua candidatura no segundo turno dessa eleição presidencial, terá votos suficiente para fazer o maior número de deputados na próxima eleição parlamentar, prevista para 2029.
Isso se a eleição não for antecipada por uma crise que derrube o governo do PSD, sem maioria na Assembléia da República. Caso isso se confirme, André Ventura poderá chegar ao seu objetivo: formar governo e dirigir Portugal.
Elementos de crise no país não faltam: os preços absurdos dos aluguéis, a falta de uma política de empregos e salários que atraia a juventude portuguesa, a ausência de uma política eficaz de combate e prevenção contra queimadas e tempestades, que vêm devastando o país nos últimos anos.
Essas e outras questões devem desgastar ainda mais o governo do primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD) no próximo período. E podem respingar também no PS, caso o mandato de António José Seguro na Presidência da República não vier a alterar a insatisfação do eleitorado português.
Na imagem destacada, André Ventura a frente de manifestação do Chega em 2021. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Diário de Notícias, Expresso, Jornal Mudar de Vida, Esquerda.net.



